Revistas Científicas
PEDRO PAULO MONTEIRO
Corpo: imagem e transformação
A uma certa idade, está em nossa natureza
nos desgastarmos, ficarmos desengonçados
e morrer, e pronto" Lewis Thomas



Será que somos castigados pelo tempo? Será que o tempo nos devasta como os ventos em dias de tempestade? Enferrujamos pela passagem dos anos? Nossas engrenagens ficam emperradas tornando-nos desengonçados? Funcionamos mal porque nossos componentes estão velhos? Em determinada época, precisaremos ser substituídos pelos mais novos?
A esta altura não sabemos mais se estamos falando de gente ou de uma máquina de lavar, ou mesmo de qualquer outra coisa. Talvez para algumas concepções não há tantas diferenças assim. Pois sabemos que o corpo humano já foi comparado ao funcionamento de um relógio, com suas polias e alavancas, a um sistema hidráulico com canais, pistões e bombas, a uma central telefônica com mensagens entrando e saindo, através de seus diversos fios elétricos.


Todavia, tais analogias grosseiramente mecanicistas, não apenas aproximaram os indivíduos a condição dos objetos materiais inanimados, como também os afastaram do seu princípio humano.
As máquinas são uma construção humana, reunindo-se um montante de peças bem definidas, com a finalidade de operar de acordo com um objetivo previsto, funcionando por meio de cadeias lineares de causa e efeito. Por outro lado, os sistemas vivos são, segundo Maturana e Varela (1997), sistemas "autopoiéticos", organizados por processos de auto-produção de componentes, que se realizam por contínuas interações e transformações dentro do sistema. Um sistema autopoiético continuamente especifica e produz sua própria organização, sob condições de contínua instabilidade. Nesse desequilíbrio reside a vida. Sendo assim, os seres vivos são autônomos, dinâmicos, imprevisíveis, sempre rumo a uma nova estrutura.


Os organismos vivos não podem ser considerados máquinas produzidas em série, porque um organismo vivo possui um alto grau de flexibilidade e plasticidade para se transformar e evoluir, já que são guiados por padrões cíclicos de laços de retroalimentação que mantêm sua auto-organização.
Enquanto existir vida em um organismo, ele estará sempre orientado à inovação, rompendo com padrões antigos em busca do novo, formando cada vez mais redes de complexidade. A criatividade da natureza humana é ilimitada.
Assim, todo ser humano, independente da idade cronológica, possui dentro de si a certeza da transformação, a capacidade de mudar o rumo de sua história, podendo construir um mundo mais satisfatório e pleno para o seu viver. Portanto, o organismo dos mais velhos está longe de ser um organismo estável, sem possibilidades, pois a estabilidade não diz respeito à vida.


Os sistemas vivos organizam-se por movimentos rítmicos em um fluxo ininterrupto recíproco entre pólos opostos. A cada movimento de expansão e contração, alongamento e encurtamento, contato e retraimento, é produzido um padrão específico de organização, que passará a determinar a história estrutural de cada ser humano. Assim, todos os pensamentos, sensações, sentimentos, emoções são organizados de tal forma que fornece a cada indivíduo uma identidade-corpo, passando a representar sua própria história. Uma história de luta e desistência, amor e ódio, silêncio e expressão, dor e prazer. Aspectos estes compostos pelo modo que cada um enfrenta, compreende e interpreta o fluxo da vida.
O sujeito, indeterminado, é mais que simplesmente uma forma. Ele é uma qualidade de ser, que emerge de sua auto-organização.

É vital para os organismos humanos a interação com o seu ambiente e com outros organismos humanos. Somos seres gregários e, portanto, precisamos receber e expressar, pela emoção do corpo, o conhecimento necessário que nos auxilie na adaptação às diversas circunstâncias da vida. Por isso, precisamos aprender, e somente por meio do processo do envelhecimento - entendido como processo de viver - iremos pertencer a um espaço e a um tempo subjetivo que nos proporcione viver em busca do conhecimento que não se esgota.
Vivemos pelo conhecer, e a aquisição do conhecimento surge pelo sentir, ou seja, pela experiência instantânea e pontual de algo que atinge o corpo. Maturana (1997) relata que a partir do momento que o organismo perde o sentido de conectividade com sua circunstância, perde também o seu conhecimento, e então morre. Não podemos viver sem o sentir porque somos a partir de nossos sentidos. São os sentidos que especificam nossa práxis do viver, sendo estes tão vitais quanto a respiração.
Viver é estar consciente dos movimentos nascentes do corpo que clama por conhecimento. Através do movimento podemos ir em busca dos nossos desejos, daquilo que ainda não foi estruturado, reestruturando antigos padrões, dando novo colorido ao contexto vivido. Entretanto, se esquecemos do nosso corpo, esquecemos também de como viver, deixando de ser.


Infelizmente, a identidade social de velho, com seus atributos negativos, determina que o desejo não pertence ao velho, que o seu tempo é o passado, sendo o futuro apenas acaso. Os atributos negativos reservam a essas pessoas a estabilidade, o cessar do movimento, retirando por completo a autonomia e decisão da direção a ser tomada. Se não há desejo, não há movimento. A motivação é minada, os sentidos se acomodam, o aprendizado não é ressignificado, e a repetição vazia se transforma em hábito, gerando angústia, depressão, degradação e fome afetiva. Em suma, para se ter movimento coordenado há necessidade de intenção orientada ao futuro, desejos que borbulhem em direção aos objetivos.
A privação do desejo na velhice, principalmente quando são perdidas as funções sociais, leva as pessoas ao isolamento e a solidão que degenera, forçando-as a acreditar na "normalidade" da situação, que retira qualquer possibilidade de dar outra direção à vida. Por isso muitos querem a morte, porque acreditam ser a única saída para a transformação, para a mudança de destino. Ninguém pode desejar o desconhecido, como também ninguém, de fato, quer modificar uma situação quando esta se encontra salutar e satisfatória. Porém, a incapacidade em adquirir sensações novas e variadas, impulsiona o velho ao isolamento e a solidão, ao silêncio do abandono que rompe seu contato vital com o mundo, propiciando a inércia do corpo, que acaba por rouba-lhe a possibilidade do conhecer.
Onde está o direito da vida e da morte? Muitas famílias parecem tratar os seus velhos como peças de antiquário, que apenas ocupam um espaço morto dentro de casa. Não os sustenta de afetividade, ao mesmo tempo, não permitem que desapareçam de seus lugares. O apego está mais circunscrito ao hábito do que a afeição. Mas então o que é viver?


Viver é ter movimento, enquanto morrer é a rigidez total (rigor mortis). Muitos velhos enrijecem seus corpos como forma de proteção, para não sentirem o fluxo da vida, porque sentir pode designar sofrimento, padecer com a espera de nada acontecer. Então, desconectam-se, ficam em suspenso, perdendo suas raízes, deixam de ser alguém porque perderam seus lugares no mundo.
Imaginamos a exclusão social dos velhos ocorrer apenas em espaços públicos. Entretanto, a exclusão e o isolamento acontecem também dentro dos espaços privados, onde o velho solitário encontra-se em seu pequeno "quarto dos fundos", vivendo junto à família mas em mundos separados, sem nenhuma comunicação afetiva. Essa fronteira bem demarcada não é somente construída por paredes de concreto mas, principalmente, por paredes simbólicas de rejeição, sinalizando a exclusão fria e velada.
A família, muitas vezes, deixa à parte o velho porque não o quer como espelho, pois, talvez, anuncie a possibilidade do próprio futuro. E como a velhice é vista como algo triste, e só diz respeito ao outro que nela se encontra, o melhor a ser feito é encerrá-lo no "quarto dos fundos" da casa, acreditando que as suas necessidades básicas estão sendo atendidas, de acordo com as demandas de um corpo que já viveu tudo o que tinha para ser vivido, agora restando apenas o descanso da "máquina" desgastada pelo tempo, esperando o momento derradeiro para sair de cena.
Assim, o velho é tratado pela família como pária, sendo considerado como uma espécie estranha que não possui as mesmas necessidades e sentimentos dos mais jovens. A ele é somente dado o básico para a sobrevivência, não mais que isso, ou seja, uma alimentação sem sabor, roupas antigas porque o corpo não oferece mais nenhum tipo de sedução, um lugar para descanso, com espaço reduzido porque não há necessidade de expandir desejos, mesmo porque o desejo é exclusividade dos jovens.


Baseado em minhas observações feitas a partir dos atendimentos domiciliares com pessoas que apresentavam deficiências físicas, decidi pesquisar a possibilidade da transformação corporal na velhice. Uma vez que verificava empiricamente o quanto essas pessoas, ao longo do tempo de convivência terapêutica, modificavam não somente seus corpos como também suas condutas, comportamentos e personalidade.
Assim, fui percebendo que não era apenas a técnica terapêutica importante, mas também a atitude solidária do terapeuta para com as pessoas que se sentiam fragilizadas e vulneráveis no processo. Isso corroborava a idéia da relevância da prática de um princípio mais humanizado, pelo qual passei a denominar de "relação sujeito-sujeito". Essa relação não vê o outro como um rótulo nosológico, como costumamos encontrar na prática terapêutica. Isto é, a pessoa perde sua própria identidade para ser conhecida como a "senhora asmática", o "senhor hemiplégico", a "dona da artrose", e assim por diante. Esses rótulos afastam a compreensão do doente, minimizando as chances do restabelecimento da qualidade de vida.


A relação sujeito-sujeito não se apoia somente no conhecimento da doença, mas vai além, procurando o entendimento profundo da pessoa que sofre. Considerar a doença do velho de modo isolado é ser simplista, porque o sofrimento humano é multifatorial e, portanto, se quisermos atuar de modo mais eficiente no cuidado aos velhos doentes, temos de compreender suas necessidades enquanto humanos, assim como a natureza de suas vidas, e não simplesmente saber as causas da doença. Devemos respeitar as queixas, sem desconsiderar absolutamente nada, mesmo porque estas, freqüentemente, são interpretadas como "queixumes da idade".
Dentro desse contexto, a pedagogia na saúde tem também papel preponderante, por intermédio da reeducação das crenças a respeito da velhice, pois, não raro, escutamos os velhos dizerem ser "natural" os infortúnios provocados pela doença nessa fase da vida. Do mesmo modo, não conseguem acreditar na possibilidade de recuperação, lamentando-se pelo fato de serem velhos. Nesse sentido, precisamos nos armar de estratégias de aprendizagem que reformem as crenças, reeduquem os conceitos, transformem os pensamentos. Somos seres integrais cuja mente não é produto do cérebro, mas um processo onipresente contínuo, cheio de vontade de transformar o não manifesto em manifesto. Assim, aquilo que acreditamos ser verdadeiro se tornará verdadeiro, nem que seja apenas aos nossos olhos.
Todo processo terapêutico deve vir fundamentado na participação ativa do doente, porque a cura não é unilateral. Se o corpo humano é constituído por átomos, a idéia de corpo como um objeto isolado no espaço e no tempo não faz sentido. Os corpos são dinâmicos e manifestam-se em processos de interação constante com os outros corpos e todas as outras coisas com as quais estão envolvidos. Desse modo, a saúde e a doença não podem ser vistas como um fenômeno somente individual e sim compartilhado, que se estende a todos os outros corpos. Não há neutralidade na ação, ou seja, a ação é sempre recíproca, causando mudanças tanto naqueles que precisam de cuidados quanto naqueles que cuidam.


Todos nós somos frágeis e vulneráveis. É contingência humana. Portanto, necessitamos do sustento da ternura e da força do cuidado. Somos seres sem fronteiras e, é por isso, que na relação sujeito-sujeito, a cura torna-se democratizada e compartilhada.
Somos tecidos em conjunto, formando uma grande e indissociável rede de relações. Por isso, a solidariedade possui um papel importante no sucesso terapêutico. Como assinala Edgar Morin, o pensamento complexo:


"É um pensamento da solidariedade entre tudo o que constitui nossa realidade; que tenta dar conta do que significa originalmente o termo complexus: 'o que tece em conjunto', e responde ao apelo do verbo latino complexere: 'abraçar'. O pensamento complexo é um pensamento que pratica o abraço. Ele se prolonga na ética da solidariedade" (Morin, 1997:11). Pela compreensão da teoria do abraço, me remeti ao toque como meio possível da materialização da solidariedade. Pois, o toque como sendo "um autêntico ponto de encontro entre os sujeitos" (Restrepo, 1998:50), poderia favorecer a mutação alquímica da cura. Não podemos nos curar sozinhos, precisamos do outro para nos orientar enquanto estivermos confusos nas brumas da incerteza do caminho a ser seguido.
A possibilidade está no verdadeiro encontro, porque a cura está no encontro, no cuidado terno do velho, auxiliando-o integrar os fragmentos esquecidos no âmbito do seu passado.
Foi por meio do toque, ressignificação da pele, que três velhas mulheres pesquisadas por mim, conseguiram confirmar que a transformação corporal na velhice é possível, mudando por completo seus hábitos, reavendo suas histórias antes perdidas no tempo, descobrindo novas formas de ser e de existir.
Essas mulheres encontravam-se abandonadas dentro do próprio domicílio, presas no labirinto da dúvida do real significado que tinham como pessoa, com os corpos maculados pelo descaso e deficientes em suas expressões.
Foram dois anos ininterruptos de contato, numa periodicidade de uma a duas vezes por semana. Durante esse tempo, foi possível coletar suas histórias de vida, nos quais busquei compreender sem mutilar suas particularidades. Em momento algum esqueci de que não poderia atingir a essência daquelas histórias, porque o relato de uma história é sempre uma recuperação da memória, por um lampejo, que vem misturado conteúdos de uma realidade presente com a paisagem esquecida do passado.


Como o ato de tocar não é simplesmente o roçar da pele de um com a pele do outro, mas transcende a própria barreira da pele para atingir a complexidade do humano, mobilizando o ser e integrando a imagem mental do corpo, tive a intenção de relacionar as histórias de vida com a projeção gráfica, por intermédio dos desenhos da figura humana.
A técnica dos desenhos da figura humana foi utilizada com a finalidade de evidenciar parte da dinâmica das imagens mentais do corpo das mulheres pesquisadas. Segundo Hammer (1991), a percepção consciente e inconsciente de uma pessoa com relação a si mesma, às outras pessoas e de seu meio determina o conteúdo de seu desenho. Sabemos que a expressão nasce a partir do mundo simbólico do sujeito, ou seja, ele utiliza-se de sua linguagem simbólica para materializar seus conteúdos internos. Dentre os quais encontra-se sua imagem corporal.

A imagem corporal pode ser entendida como a figuração do corpo formada na mente. Esta figura vai sendo desenhada de acordo com o modo que o sujeito elabora suas experiências corporais no mundo externo. Para que esta figura corpo esteja integrada de maneira eficiente é necessário que o sujeito interaja harmoniosamente com o seu meio.
A imagem corporal é dinâmica e em processo contínuo de mudanças, sendo construída e reconstruída a todo o momento. A cada movimento do corpo no espaço, um novo padrão de organização da imagem corporal é formado, ou seja, pelas sensações e pela motricidade forma-se uma nova configuração do corpo na mente. Essa imagem não é somente construída pelos registros sensoriais e motores, mas também pelos significados afetivos e emocionais da experiência vivida, propiciando ao indivíduo outros sentidos e perspectivas acerca do aprendizado alcançado.
Assim, a imagem corporal nos oferece uma compreensão do modo como o corpo se apresenta para nós, daquilo que somos como indivíduos e a maneira de olharmos o mundo e para nós mesmos.

Foi possível observar pelos desenhos feitos o quanto a perda, exclusão, rejeição, angústia, dor, sofrimento e a depressão provocavam lacunas e distorções na imagem corporal, gerando diminuição da expressão psicomotora. E o quanto foi possível, pelo contato e pela relação sujeito-sujeito acender uma imagem mental preenchendo as lacunas formadas na representação do corpo.
Confirmei a hipótese de que o caminho para a transformação corporal das velhas mulheres pesquisadas estava no encontro terapêutico. Pois, toda experiência transformadora de fé, esperança e amor fundamentam-se na prática da generosidade no momento que o outro se desnuda, e se coloca indefeso na relação. Sendo assim, a vulnerabilidade deve sempre ser aceita com solidariedade, referenciado na parceria, sem dominação que possa retirar a espontaneidade do outro.
Nessa aventura terapêutica constatei que os corpos humanos são plásticos porque vivem, obedecendo a regra da vida que é transformar, inovar, evoluir. Assim, enquanto um corpo viver, independente de sua idade cronológica, existirá dentro dele a potencialidade, a certeza da mudança. Por isso, ele será capaz de reconstruir sua história no fluxo do tempo, no próprio tempo, no seu tempo vivido.
Contudo, a velhice não é a espera do fim da jornada. Ao contrário, ela pode representar o momento do resgate, da ressignificação da história. Porém, isso exige ação concentrada, reflexão dirigida, movimento que possibilite o encontro de respostas.
Dentro dessa perspectiva, se acreditarmos no humano, na força que o mobiliza, poderemos também acreditar na magia, no milagre da vida.
Podemos, assim, contrapor com a idéia preconizada por Lewis Thomas, dizendo:
A uma certa idade está em nossa natureza criar novos rumos para a nossa história, tornando-nos mais livres e, finalmente, aceitando ser quem de fato somos.
Assim seja!


BIBLIOGRAFIA:

GROF, Stanislav. O jogo cósmico: explorações das fronteiras da consciência humana. São Paulo: Editora Atheneu, 1998.
HAMMER, Emanuel F. Aplicações clínicas dos desenhos projetivos. São Paulo: Casa do Psicólogo, 1991.
LOWEN, Alexander e LOWEN, Leslie. Exercícios de bioenergética: o caminho para uma saúde vibrante. 3ª ed. São Paulo: Editora Ágora, 1985.
MATURANA, Humberto. A ontologia da realidade. Organizado por Cristina Magro et al. Belo Horizonte: Editora UFMG, 1997.
e VARELA, Francisco J. De máquinas e seres vivos: Autopoiese - a organização do vivo. 3ª ed. Porto Alegre: Editora Artes Médicas, 1997.
MORIN, Edgar. "Abertura". In: Gustavo Castro et al. ( org. ). Ensaios de complexidade. Porto Alegre: Editora Sulina, 1997.
RESTREPO, Luis Carlos. O direito à ternura. Petrópolis: Editora Vozes, 1998.
ROSE, Steven. O cérebro consciente. São Paulo: Editora Alfa-Omega, 1984.
SCHILDER, Paul. A Imagem do Corpo: as energias construtivas da psique. 2ª ed. São Paulo: Editora Martins Fontes, 1994.