Revistas Científicas
PEDRO PAULO MONTEIRO
Espaços Internos e Externos do Corpo :Envelhecimento e Autonomia
A vida é conhecimento puro. Os seres humanos vivem pelo conhecer, experimentando a cada momento o desvelar do novo. Enquanto estiverem vivos estarão conhecendo porque viver é conhecer, conhecer é viver . Este conhecimento garante a adaptação do corpo à circunstância, e a cada adaptação se estabelecerá uma mudança corporal. O passar de uma etapa a outra faz o organismo humano especializar-se, evoluir e, conseqüentemente, envelhecer. Em suma, envelhecer é um processo contínuo de mudança do organismo pela passagem da temporalidade. A cada novo acontecimento, um novo padrão corporal adquirido. A estrutura muda sempre que o corpo se move no espaço. Assim, a experiência vem continuamente carregada de possibilidades de transformação. Isso quer dizer que o corpo estará aberto a aquisição do conhecimento enquanto houver possibilidades de experimentação. Através do movimento o conhecimento é adquirido, conservando a vida.
Pela perspectiva da "Biologia do conhecer", preconizada por Humberto Maturana, a manutenção da adaptação do corpo no espaço é imprescindível, sendo necessário estabelecer uma congruência com o meio para que o organismo consiga viver. A partir do momento que o organismo perde essa congruência ele morre. Enquanto houver vida, o organismo se relacionará ao ambiente, fazendo dele um apêndice do próprio corpo. Em outras palavras, para que haja vida é necessário espaço vazio, caminhos possíveis, terrenos sólidos para a experimentação do corpo. Qualquer fator limitante ao corpo propicia ameaça ao sentido de pertencer. Estar no tempo e no espaço pressupõe a existência humana.


MUNDO CONTRAÍDO

Oliver Sacks , conceituado neurologista, descreve em seu livro "Com uma perna só" suas agruras após sofrer um acidente numa montanha da Noruega, tendo que se submeter a uma delicada cirurgia na perna esquerda. Ele conta com muita propriedade sua dificuldade em estar com o corpo limitado, dificultando sua percepção do espaço. Ele descreve sua recuperação da seguinte maneira:

"A cada degrau, a cada avanço, os horizontes se expandiam, saía-se de um mundo contraído - um mundo que não percebíamos estar tão contraído. Constatei isso em cada esfera, a fisiológica e a existencial. Um exemplo me ocorre especialmente: três dias depois de eu ter andado pela primeira vez, fui transferido para um novo quarto, um quarto espaçoso, depois de vinte dias em minha cela minúscula. Eu estava me instalando, feliz da vida, quando de repente notei uma coisa estranhíssima. Tudo o que estava perto de mim tinha a solidez, as dimensões e a profundidade apropriadas - mas tudo o que estava mais longe era totalmente plano. Além de minha porta aberta havia a porta da ala fronteiriça; além daquela porta, um paciente sentado numa cadeira de rodas; além dele, no peitoril da janela, um vaso de flores; e além deste, do outro lado da rua, as janelas de frontão da casa em frente - e tudo isso, uns sessenta metros, talvez, era achatado como uma panqueca, e parecia exposto como uma gigantesca fotografia em cores no ar, primorosamente colorida e detalhada, mas perfeitamente plana"(Oliver Sacks, 2003:133)

Oliver Sacks concluíra que mesmo estando em outro quarto, sua percepção espacial ainda permanecia encerrada, visualmente, numa caixa de mais ou menos 3 x 2 x 1,8 metro, o tamanho exato da "cela" que ocupara durante vinte dias. Sua percepção espacial distorcida ainda durou algum tempo até retornar por completo.
Oliver Sacks passou apenas vinte dias nessa situação, enquanto muitos velhos em nossa sociedade estão confinados durante anos dentro de quartos com espaços reduzidos. Não raro, os espaços são ainda mais reduzidos por conter todos os seus objetos de valor, ou seja, aqueles que lhe restaram durante a vida: móveis que fizeram parte de um tempo, âncoras de lembranças que mantém a referência viva de suas histórias. Essas pessoas receiam deixar para trás seus objetos, e perderem seus espaços internos, pois os objetos também delimitam os espaços internos, construindo suas narrativas.
O que está fora favorece o conhecimento da pessoa, porque proporciona os limites do seu corpo. Uma pessoa conhece seus limites quando se defronta com os objetos do mundo. Quando toca o mundo ela toca a si mesma. Por isso quando deixa de se relacionar com o seu meio o indivíduo passa a ignorar a si próprio, se perdendo dentro de seu corpo. O espaço se contrai, diminuindo suas escolhas, propiciando a produção de um estereótipo social. Por isso, o outro é sempre uma oportunidade do indivíduo ter a sensação de si mesmo.
O outro propicia a noção da realidade consensual, na qual pode ser compartilhado o alimento afetivo, e a certeza de continuidade da trilha do tempo ainda existente. Estar preso a um tempo passado é estar rompido com a existência da forma, é o naufrágio do corpo, a decrepitude da estrutura pelos fantasmas da velhice.


As pessoas que permanecem por muito tempo em espaços reduzidos sem a possibilidade de relação com outros corpos, são pessoas comprometidas não apenas sensorialmente como também em um nível comportamental. Vários estudos demonstram que um ambiente sensorial monótono influencia o comportamento, a fisiologia do organismo e sua percepção. Quantos velhos não reclamam da repetição dos dias, da mesmice da vida, da espera infindável de nada acontecer. Quanto mais tempo a pessoa ficar distante de estímulos sensoriais, mais riscos de apresentar quadros de alucinações, como imagens geométricas, pontos, lampejos etc.
O corpo sendo um importante ponto de referência espacial necessita de movimento, pois o movimento otimiza a adaptação ao meio circundante, fornecendo a experiência necessária para a aquisição do conhecimento. Um conhecimento essencial que delimita rotas, cumpre metas, planeja realizações. Em contrapartida, espaços individualizados e solitários são más estratégias de existência. Em suma, o coletivo dinamiza o senso de ser e estar de cada indivíduo, dando-lhe a capacidade de pertencer a um espaço.
Infelizmente ainda existem velhos deficientes com receio de sair de seus quartos porque possuem medo de expandir suas experiências. Estão confinados há anos dentro de um espaço pequeno e sem vida. O seu único contato é com o mundo virtual da televisão, misturado às lembranças sem cor. O que é lembrar sem poder compartilhar as lembranças? Memórias sem oportunidade de interação são como cores sem nuances.
Infelizmente, muitas famílias têm a concepção de que os velhos precisam de pouco, não compreendendo que o espaço é necessário para a expansão do corpo e a manutenção da vida. Dentro do mundo contraído dos quartos dos fundos não há possibilidade para a experimentação. O que é uma pessoa sem experiência? Sem a experiência não há alimentação dos sentidos, a privação sensorial é marcante promovendo o rápido declínio do corpo. Este corpo definha respaldado pela explicação especialista da biologia do envelhecimento.
A exclusão privada favorece o processo de descorporificação, o desaparecimento da pessoa, porque sem corpo não há existência. Deixando lugar apenas ao diagnóstico. Assim, todas as perguntas não ficam sem respostas, surgem justificativas ideológicas de que o envelhecimento se explica estritamente pela biologia mecanicista.
Freqüentemente, em meu trabalho como fisioterapeuta atendendo na residência de pessoas com impossibilidades de locomoção, observo suas dificuldades de relacionamento com o espaço. Muitas vezes estas pessoas moram em lugares amplos, porém sem poderem cruzar determinadas linhas imaginárias impostas por outros. Acabam por se tornarem reféns da própria família. As regras devem ser obedecidas, caso não queiram conflitos.
Quando os velhos são dependentes de seus filhos tendo que morar com eles, comumente necessitam de cuidados, e são as empregadas domésticas dos filhos que assumem este papel, transformando-se em cuidadoras da noite para o dia. Mãos repletas de tempero de alho e cebola se intercalam com o trabalho de higienização do corpo do velho doente que perdeu sua independência física e, conseqüentemente, sua autonomia.

INDEPENDÊNCIA E AUTONOMIA

É importante diferenciar independência física de autonomia. A independência física é o ato de agir com o corpo em todos os sentidos sem necessitar de auxílio de outrem. Enquanto a autonomia possui um conceito mais amplo, significando a condição de se relacionar com as pessoas de um modo igualitário, uma relação sujeito-sujeito, permitindo o respeito pelas capacidades do outro. De acordo com Marta Bruno (2001), "a autonomia configura os limites pessoais necessários para se obter sucesso nos relacionamentos" . Para a autora, é fundamental que a dimensão de liberdade que expressa a autonomia da ação do velho seja refletida junto às famílias.
A palavra refletir significa "dobrar sobre si mesmo". Refletir é sempre uma atitude de humildade e comiseração, pois quando o outro se abre para acolher as palavras de seu interlocutor, ele se curva em reverência para escutá-lo. Mesmo que depois não aceite suas palavras, dá a chance de ouvir o que o outro tem a dizer. O problema da velhice está no monólogo intergeracional, isto é, aquilo que o mais jovem fala pouco importa se o mais velho esteja escutando, porque sua opinião muitas vezes não é relevante, e quando o mais velho fala, os pensamentos do mais jovem estão tão distantes do diálogo que são incapazes de ouvi-lo na íntegra. O ruído da relação ensurdece qualquer possibilidade de respeito mútuo. Por esta razão, é evidente o problema do espaço para os velhos em suas próprias casas.
A velhice não pode ser generalizada, como também ela não pode ser encarada como doença. Há anos trabalhando com velhos doentes em seus domicílios, venho observando que quando essas pessoas conseguem restabelecer sua independência física enfrentam um dos maiores obstáculos: a reconquista do espaço perdido.
No livro "Envelhecer: histórias, encontros e transformações" é contada a história de uma senhora que havia fraturado o colo de fêmur e desde então encontrava-se acamada e abandonada. Mesmo morando em uma grande casa, com o filho, a nora e os netos, ela ficava em um quarto pequeno e escuro nos fundos da casa e, junto dela, havia uma máquina de costura sem uso, uma máquina de lavar enferrujada e um armário onde guardavam "tudo aquilo que não possuía mais valor. O espaço do quarto era pequeno para tantas coisas sem importância, esquecidas no tempo" .
A história dessa senhora é a história de muitas outras senhoras que participam da exclusão privada da velhice. Uma exclusão silenciosa, onde os gritos só são ouvidos através das dores do corpo que clama por socorro. Estas pessoas são sufocadas em espaços que não lhe deixam respirar, impedindo qualquer possibilidade de viver. Por isso, querem a morte como dádiva de Deus. Rezam freqüentemente para que o fim dos seus dias seja breve.
Quando um corpo se move no espaço, ele interfere nos outros corpos. Nesse sentido, a família de um doente é também doente. Não há possibilidade de reabilitar o corpo do velho sem também dar movimento de compreensão para a sua família. Os outros corpos precisam ser flexíveis para aceitar o movimento do velho que se desloca no espaço. É através dessa flexibilidade que a relação poderá ser resgatada, propiciando novos arranjos familiares. Quando isso não ocorre, há um desacordo entre os corpos, um conflito intergeracional, e os atributos negativos da velhice tomam conta do discurso: "o velho é ranzinza", "minha avó parece criança", "por que todo velho é teimoso?", "o tempo do velho é o passado, por isso ele não entende o presente", e assim sucessivamente.
Todo movimento requer espaço e tempo. Cada velho possui seu próprio ritmo, seu próprio tempo, um tempo vivido, e não um tempo cronológico.
Quando o velho e o jovem atingem a autonomia do diálogo intergeracional sem conflito, passam a perceber que seus tempos se complementam formando um único e verdadeiro tempo: o tempo da experiência com qualidade - o que é ser um velho experiente se essa experiência não puder ser de qualidade? Quando eles experimentam juntos o tempo presente os espaços se ampliam, tornando-se mais habitáveis, porque a moradia reside na comunhão e não na solidão que rompe, maltrata, fere a carne, colocando o velho à parte de seu tempo e espaço.
Para que o velho possa trazer o tempo passado, aceitando o tempo presente, pensando em possíveis momentos futuros, ele precisa de espaços livres, a fim de ampliar suas experiências corporais. Sem a experiência do corpo não há modos de conhecimento, a cognição se deteriora, se modifica, distorce. Os velhos isolados em quartos apertados não conseguem construir um novo tempo, ficam à deriva do tempo distorcido do passado, com medo de se lançarem em novas descobertas, de descobrirem outros espaços, sentindo-se instáveis estruturalmente. O medo de cair toma forma assustadora e os limites se perdem, as referências se dissolvem. O corpo instável não arrisca, resiste ao movimento, ficam anestesiados para as sensações do mundo. O mundo se transforma em uma experiência frustrante, e a desistência é a opção.
Quanto maior a vulnerabilidade do corpo, maior a proporção de comportamentos mediados pelo ambiente. Isto é, a influência do ambiente se torna maior em detrimento dos comportamentos mediados pelos recursos pessoais. Portanto, a boa oferta de recursos físicos e psicossociais podem favorecer a saúde e o bem-estar dos velhos vulneráveis e dependentes. Um ambiente planejado que proporcione espaço de experimentação ao velho, diminui estados de apatia e desinteresse, assim como restringem queixas tais como dores, insônias, depressão e ansiedade .
Se através do corpo o mundo de uma pessoa é construído, então os corpos dos velhos sem movimento são corpos sem espaço, sem liberdade, sem autonomia. São corpos outorgados a obedecerem às leis do estigma da velhice.


AUTONOMIA DO CORPO

A autonomia corporal precisa ser resgatada para haver mudança dos espaços de moradia. O primeiro espaço a ser mudado é o próprio território; o corpo. É a partir do corpo que se tem referência do mundo. Tudo que se aproxima ou se afasta acontece a partir de um ponto de referência espacial. São estas relações espaciais que precisam ser devolvidas ao velho. O processo de mudança tem início no corpo - espaço primordial - para depois poder se ampliar para outros espaços. Quanto maior a ampliação dos espaços internos, maior a necessidade dos velhos buscarem novos espaços para viverem e conquistarem melhor qualidade em suas vidas, porque qualidade é um fenômeno subjetivo, não sendo condizente à identidade social de velho. É importante reforçar que "qualidade de vida" refere-se ao sujeito e a sua história. A identidade é estanque, nada cria, só repete e está corrompida. O corpo é permeável às máculas da cultura. Por isso é urgente a reforma de pensamento acerca da velhice.
O ser humano é o seu espaço físico, porque o corpo não está apenas fora, ele se encontra também dentro de seu espaço simbólico, subjetivo que precisa ser respeitado, dignificado. Por assim dizer, o espaço de moradia do velho deve ser pensado estrategicamente baseado na qualidade de vida escolhida por ele individualmente, porque ele, como sujeito, possui rosto, corpo, não é uma estatística. Se possui corpo é porque tem uma história, e esta precisa ser respeitada.
Os espaços de moradia precisam ser democratizados, levando em conta as idiossincrasias daqueles que lá viverão. Portanto, a escolha deve partir daqueles que irão viver no espaço que, por sua vez, será o apêndice de seus próprios corpos.
Como bem assinala Leonardo Boff: "a libertação dos oprimidos deverá provir deles mesmos, na medida em que se conscientizam da injustiça de sua situação, se organizam entre si e começam com práticas que visam transformar estruturalmente as relações sociais iníquas" . Ninguém melhor para saber qual espaço ocupar do que os velhos que o ocuparão.

CONSIDERAÇÕES FINAIS:

Dentro dessa concepção, a organização em grupos é uma metodologia imprescindível as mudanças de pensamento acerca da velhice. Em processos coletivos, há a possibilidade de se trocar pontos de vista, desconstruir concepções de mundo reproduzidas e construir novos paradigmas, resgatar o direito à palavra e à elaboração do próprio pensamento, realizar a troca de pontos de vista, expressar sentimentos e emoções, partilhar questões em comum, contextualizar-se no tempo e no espaço, enfim, experienciar, de formas bem concretas, os requisitos de uma cidadania. No face a face coletivo torna-se possível tecer uma nova corporeidade, referência para infinitas possibilidades de vida.




Agradecimentos:
Maristela Barenco, Coordenadora do Centro de Defesa dos Direitos Humanos de Petrópolis-RJ.


BIBLIOGRAFIA:

MATURANA, Humberto. Humberto Maturana: A ontologia da realidade.Organizado por Cristina Magro et al. Belo Horizonte: ed. UFMG, 1997.
SACKS, Oliver. Com uma perna só. São Paulo: ed. Companhia das Letras, 2003.
DAVIDOFF, Linda L. Introdução à psicologia. 3ª ed. São Paulo: ed. Makron Books, 2001.
BRUNO, Marta Regina P. Autonomia e cidadania: caminhos e possibilidades para o ser idoso. Revista Kairós - Gerontologia. São Paulo, 2001; 4:143-153.
MONTEIRO, Pedro Paulo. Envelhecer: histórias, encontros e transformações. 2ª ed. Belo Horizonte: editora Autêntica, 2003. p. 16
PERRACINE, Mônica R. "Planejamento e adaptação do ambiente para pessoas idosas" in: FREITAS, Elisabete et al. Tratado de Geriatria e Gerontologia. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2002.
BOFF, Leonardo. Saber cuidar. Petrópolis: ed. Vozes, 1999. p. 141