Revistas Científicas
PEDRO PAULO MONTEIRO
Envelhecimento: Rumo ao Novo Paradigma.
A maior parte das pessoas quando pensam em envelhecimento, pensam em anos cronológicos, não poucos, mas longos anos, considerando que somente os velhos envelhecem.
Será que começamos a envelhecer apenas depois de determinada idade, ou estamos envelhecendo a todo momento porém não reconhecemos este processo?
A idade cronológica, escala numérica, não parece ser um meio legítimo para situar as pessoas no tempo, pois "o homem não está no tempo, é o tempo que está no homem" (Martins, 1998: 12). Nesse sentido, os anos vividos dizem respeito apenas ao sujeito que os vive, é uma pertença existencial e subjetiva. Entretanto, a idade cronológica constitui um dos elementos de diferenciação entre as pessoas em nossa sociedade, determinando atributos próprios para cada grade etária, obrigando os indivíduos assumirem comportamentos próprios de sua idade.
Contudo, se o tempo é totalidade, é existência, é a possibilidade do ser, podemos então dizer que o envelhecimento não é algo estático, estanque, não é fim. Pelo contrário, é um processo contínuo de transformação do humano como ser único em seu tempo vivido.


Dessa forma, quando nos referimos ao envelhecimento dos organismos vivos, pensamos em um processo cíclico de mudanças, caracterizado por um ritmo de degeneração e morte, recomposição e vida. Como nos mostra a célebre sentença do filósofo Heráclito de Éfeso: "Viver da morte, morrer da vida".
O organismo humano, como um sistema complexo, possui um dinamismo individual que requer flexibilidade para o seu desenvolvimento em seu próprio tempo. Não existe estabilidade nos sistemas vivos, apenas estados dinâmicos. Portanto, o dinamismo dos sistemas possui um movimento contínuo indo sempre em busca de uma nova estrutura. Dentro dessa perspectiva, o passar de uma etapa a outra faz o sistema envelhecer e a especializar-se. Essa especialização é fundamental para que o organismo desenvolva e evolua.
Associado a evolução é natural que surja também mudanças corporais. Entretanto, as modificações não precisam necessariamente vir acompanhadas de doença.
Thorwald Dethlefsen e Rüdiger Dahlke (1994) relatam que é um equívoco utilizar a palavra doença no plural - doenças, porque esta palavra só pode ser usada no singular. Do mesmo modo que saúde. Doença e saúde são palavras singulares porque se referem ao estado da pessoa em si, e não as partes do corpo ou órgãos.


Infelizmente, a velhice, não raro, é interpretada pelas pessoas como sinônimo de doença. É evidente que um sistema mais velho encontra-se mais suscetível a adoecer, porque há uma diminuição em sua capacidade de defesa. Porém, essa capacidade não está circunscrita somente aos processos biológicos. Não ficamos doentes em decorrência da velhice e sim devido a vulnerabilidade biopsicossocial.
A especialização na ciência contemporânea tem como resultado inegável um maior conhecimento das partes isoladas, mas, simultaneamente, obscurece qualquer compreensão da totalidade do ser humano, não reconhece e respeita a singularidade.
De acordo com Fritjof Capra (1994, 1997), a ciência médica contemporânea ainda apresenta uma visão mecanicista da vida, reduzindo a organização dos sistemas vivos a mecanismos moleculares e celulares deterministicamente. Apesar dos organismos vivos se apresentarem com uma grande variedade de partes e mecanismos semelhantes a máquinas, isto não significa que eles sejam máquinas. Há uma considerável diferença entre as máquinas e os organismos vivos. As máquinas são construídas montando-se um número bem definido de peças a partir de um projeto determinado e previsível, que funciona de acordo com cadeias lineares de causa e efeito. Assim, é possível estabelecer uma causa única de um defeito caso este ocorra, bastando simplesmente ler o manual de instruções para entender qual a peça danificada, trocando-a com o intuito de restabelecer o funcionamento.


Os organismos vivos, por outro lado, são constituídos por sistemas de redes de células, órgãos que interagem em várias direções com outros sistemas, formando laços de interligação e interdependência.
Não obstante as partes de um organismo apresentarem regularidades e tipos de comportamento bem definidos, as relações entre suas partes não são rigidamente determinadas, possuindo um alto grau de flexibilidade e plasticidade para o seu desenvolvimento. A flexibilidade e plasticidade interna possibilitam aos organismos se adaptarem a todo momento às novas circunstâncias.
O estado de interdependência e inter-relação não linear dos sistemas vivos mostra que uma doença não pode possuir uma causa única. Portanto, não é uma parte do corpo ou órgão que se encontra doente, mas o ser humano que padece em sua totalidade. Isto reforça a idéia de que não existem doenças, apenas doentes.
Do mesmo modo, não há meios de determinar com exatidão a idade biológica dos seres humanos, porque os organismos vivos possuem um ritmo de pulsação diferente para indivíduos diferentes. Nunca envelhecemos de modo idêntico aos outros. Assim, a idade biológica não pode estar relacionada com a idade cronológica. A primeira segue um ciclo biológico envolvendo etapas de evolução do ser humano, como nascimento, crescimento e morte, enquanto a idade cronológica é um conceito neutro, numérico, que serve apenas para fazer classificações. Isto é, ela é importante em questões burocráticas e legais, determinando a maioridade legal, a entrada no mercado de trabalho, o direito à aposentadoria.


O problema da classificação é o rótulo imposto aos indivíduos. Rótulos rígidos que interferem na vida cotidiana das pessoas, estabelecendo regras de condutas tanto para os jovens quanto para os velhos.
A velhice não deve ser confundida com o envelhecimento. Enquanto o envelhecimento é um processo natural de transformação do ser humano através da temporalidade, a velhice é uma produção social e não uma categoria natural. Contudo, a produção social irá influenciar diretamente no processo do envelhecimento dos indivíduos, pois ao mesmo tempo em que somos produtores de uma cultura, somos também produtos dela própria.
A velhice é uma construção feita pela sociedade como meio de categorizar os velhos com seus atributos, colocando-os dentro de uma identidade estanque que permite a todos preverem esta categoria.
Baseado em conceitos aprendidos, são formadas as nossas expectativas dentro de um padrão individual daquilo que acreditamos ser o normal, constituindo em exigências particulares sem qualquer flexibilidade. Estas exigências nem sempre são preenchidas com as expectativas normativas. Quando a situação é a oposta a aprendida, ficamos diante do não identificável, e como atitude fundamentada em conceitos sólidos, repudia-se toda e qualquer situação afastada daquela na qual não haja identificação. Deste ponto em diante cria-se a fronteira entre o "normal" e o "diferente".
Segundo Yan Belz (1992), diferença se opõe a parecido, a idêntico, gerando fragmentação, separando os seres humanos e, finalmente, provocando o vazio do afastamento.


É inquietante, incômodo e, não raro, desestruturante receber informações que não possuem o mesmo padrão das informações armazenadas previamente em nossas mentes. O incômodo põe em risco o esmagamento do diferente, segregando-o como forma de preservação de território.
Muitas pessoas encontram-se diante do diferente quando vêem velhos que exercem suas atividades sociais com entusiasmo como, por exemplo, quando aparecem guiando uma moto, saltando de pára-quedas, namorando na praia, etc. Quando estas pessoas demonstram atributos que não possuem adequação ao modelo conceitual do que é ser velho, passam a merecer destaque na mídia como se isso fosse algo fantástico e inusitado.
Precisamos lembrar que somente através do diferente podemos renovar nossas crenças. Sendo assim, se existem pessoas que demonstram tais condutas não podemos dizer que isso seja uma exceção, mas sim uma possibilidade de todos. Basta flexibilizarmos nossas crenças aceitando o diferente para transformarmos por completo nossa forma de ser e de viver. Por isso, não há necessidade de nivelar aquilo que nos contrasta, o que precisamos mesmo é educar o olhar para que possamos aprender com o diferente.
É preciso assumir um compromisso semelhante ao do artista que vê beleza nas formas, independente do seu padrão. Exemplo disso, está na escultura "La belle haulmiére" de Rodin, que é a figura de uma velha mulher com braços e pernas retorcidos, magros e enrugados, demonstrando cansaço e fraqueza na forma castigada pelo tempo. Não obstante a velha apresentar-se feia a certos olhos, ela demonstra beleza em sua totalidade, pois a beleza é contextual. Como assinala Rodin: "Em arte, beleza é caráter. Só vale o que realmente preenche a intenção da natureza, plenificando-a concretamente. Só vale o que nos impressiona com absoluta verdade" (Rilke, 1995: 14). Ele a vê bela porque vê em seu corpo cansado a verdade da existência, a mais profunda realidade.


É necessária a transformação do olhar para que se modifique a imagem do velho, construída por uma sociedade que não acredita no envelhecimento como processo, apenas como ameaça da morte.
A imagem do velho está tão arraigada em nossas mentes, que quando perguntamos a alguém qual a imagem que vem a consciência quando pensam em uma pessoa velha, a resposta é imediata: uma pessoa curvada, com passos curtos e lentos, fazendo uso de uma bengala, que não escuta e enxerga bem. Estas imagens são formadas desde cedo, ainda na infância, pelos pais, com grande contribuição posterior da sociedade através dos meios de comunicação. As imagens vêm também carregadas de significados negativos como: "o tempo do velho é o passado e não mais o futuro", "os velhos são lentos e dependentes", "os velhos são sempre um peso para a família", entre outras. Por esta razão que nenhum de nós quer ser este velho, sendo tão difícil reconhecer e aceitar a velhice.
Reconhecer as transformações nos outros é sempre mais simples do que em nós mesmos, porque as mudanças ocorrem lenta e progressivamente, e como o nosso cérebro possui uma capacidade constante de renovação, faz com que a imagem de nosso rosto de ontem, refletida no espelho, seja sutilmente apagada, deixando lugar para a imagem do rosto de hoje. Essas mudanças sutis associadas às representações sociais de que a velhice é algo negativo, induz o indivíduo a rejeitar a velhice dentro de si, enxergando-a apenas fora, no outro.


De acordo com Hamachek (1979), o ideal cultural ajuda a moldar o ideal corporal, influenciando positiva ou negativamente na auto-estima das pessoas. Neste sentido, fica claro que a sociedade, perversa para com os velhos, incide sobre eles normas específicas a serem seguidas, fazendo-os agir como "velhos sociais"; reforça a formação de hábitos que nem sempre condizem com a realidade estrutural do sujeito; incute nele uma imagem corporal do que é ser "velho".
A crença socialmente construída não aceita particularidades, corrobora uma imagem de velho que possui uma postura deprimida, inclinada à frente prestes a cair no fracasso da existência, perdendo toda e qualquer possibilidade de tomar novos rumos para sua vida, fundada na noção de que o futuro é inatingível.


Portanto, há uma necessidade urgente de renovarmos o aprendido, desestruturar conceitos estanques a respeito da velhice, formar uma nova estrutura de pensamento. Um pensamento que rompa com a identidade de velho que tanto nos angustia, abrindo espaço para que surja um novo sujeito:
- que aceite o corpo experimentando-o com um novo sentido, modificando sua interpretação, renunciando a reprovação que vem de fora;
- que aceite e reconheça seu valor interno;
- que aceite as perdas como forma de deixar espaços para novas aquisições;
- que aceite a informação, refletindo e questionando-a profundamente, a fim de aglutinar experiências com qualidade;
- que reescreva seus conceitos, ressignificando sua história de vida para que possa flexibilizar suas características pessoais;
- que reorganize os próprios hábitos para que as escolhas não se tornem restritas;
- que deixe algumas "malas pesadas" do passado, sabendo que não são somente elas que lhe dão significado;
- que abra espaço para a criatividade, sonhos, desejos, descobrindo novas formas para o seu viver;
- que pratique a generosidade com o intuito de reencontrar seu lugar e sentido na vida que ainda lhe pertence;
- que aceite a transformação verificando o quanto ela pode ser excitante quando seguida;
- que aceite a morte como algo que se tem para viver como processo;
- que aceite o tempo presente como "presente", dádiva, ou seja, o único momento que se tem verdadeiramente entre os dois nadas: passado e futuro.

A percepção da realidade é um processo aprendido, no qual formamos nossa estrutura conceitual de mundo. Podemos ser criativos e refazer nossas crenças, reescrevendo nossa história na temporalidade, transformando nosso olhar para ver o belo e aceitar as diferenças, percebendo melhor que tudo e todos que estão a nossa volta fazem parte de um processo contínuo de interação recíproca. Assim, o outro é a grande oportunidade de descobrirmos aquilo que nos falta para preencher as lacunas de nossa própria história.
Se conseguirmos respeitar, valorizar e compreender a história de vida dos velhos, que se faz inteira mesmo em um corpo cansado, veremos que fazemos parte dessa mesma narrativa.
Se for possível resgatar o belo e o encanto em nosso olhar, teremos a capacidade de reinventar o sonho, o sonho de ser eterno.


BIBLIOGRAFIA:

BELZ, Yan. "Semelhanças e diferenças". In: A imagem do corpo/ IV Congresso Brasileiro de Psicomotricidade; Sociedade Brasileira de Psicomotricidade. Rio de Janeiro: Livr. Psico-Medi, 1992.
CAPRA, Fritjof. A Teia da Vida: Uma Nova Compreensão Científica dos Sistemas Vivos. São Paulo: ed. Cultrix, 1997.
O Ponto de Mutação: A Ciência, a Sociedade e a Cultura Emergente. 16ª ed. São Paulo: ed. Cultrix, 1994.
DETHLEFSEN, Thorwald e DAHLKE, Rüdiger. A Doença como Caminho. São Paulo: ed. Cultrix, 1994.
GOFFMAN, Erving. Estigma: Notas sobre a Manipulação da Identidade Deteriorada. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1975.
HAMACHEK, Don E. Encontros com o Self. Rio de janeiro: ed. Interamericana, 1979.
MARTINS, Joel."Não Somos Cronos, Somos Kairós". Revista Kairós: Gerontologia - Núcleo de Estudo e Pesquisa do Envelhecimento. Programa de Estudos Pós-Graduados em Gerontologia - PUC-SP. 1.1: 11-24, 1998.
MORIN, Edgar. Introdução ao Pensamento Complexo. 2ª ed. Lisboa: Instituto Piaget, 1990.
RILKE, Rainer Maria. Rodin. Rio de Janeiro: ed. Relume-Dumará, 1995.