Memorial - página2
A Universidade

Fiz o preparatório para o vestibular, passei, e fui cursar Fisioterapia. Naquela época, nem sabia ao certo o que era. Só me lembrava do alívio que minha mãe sentia quando fazia tratamento fisioterápico em um dos hospitais da cidade. Dessa maneira, talvez acreditasse que essa profissão poderia propiciar algum tipo de alívio às pessoas que sofriam. Esse era o meu objetivo desde a infância.


Na faculdade as dificuldades eram grandes, principalmente pelo fato de estar fora da vila, me sentindo como um pequeno peixe que escapa do aquário para um grande rio. Tudo era diferente, maior e representativo, possibilitando-me recursos para "ser alguém na vida".


Estudava em tempo integral. Eram várias disciplinas. O que mais me fascinava eram os assuntos relacionados à Dor. Não tive bons professores que me possibilitassem um maior conhecimento nesse assunto, mas a descoberta começou a ser feita sozinho. O meu interesse era suficiente para conseguir um bom entendimento, e fui construindo o meu saber no passar do tempo.


Na universidade não se discutiam assuntos relacionados ao envelhecimento, não havia nenhuma disciplina de geriatria. Em contrapartida, tinham duas disciplinas de pediatria no currículo. A única lembrança da faculdade com relação a esse tema remete-se a uma professora que dizia que não poderíamos exigir demais das "pessoas de idade", porque elas possuíam corações e pulmões fracos e doentes. Sem falar nos exercícios que ensinava. Ela realmente tinha uma idéia que todo velho era feito de porcelana, correndo o risco de quebrar a qualquer descuido. Essa colocação assustava a todos, e ninguém queria tratar de gente assim, devido ao perigo anunciado. Porém, o destino reservara algumas surpresas, e o meu primeiro "paciente" na prática de estágio supervisionado foi uma mulher de 60 anos. Surgia, então, o desafio, que confesso não ter sido tão difícil assim, pois a minha relação com os mais velhos sempre fora mais fácil do que com crianças. Não tinha muita aptidão com os pequenos.

Início do trajeto profissional

"A medicina não é apenas uma ciência,
mas também a arte de deixar nossa individualidade
interagir com a individualidade do paciente" Albert Schweitzer

Formei-me em 1988. Inicialmente não consegui emprego. Foi um momento difícil de transição, queria exercer a função de terapeuta tão sonhada. Após três meses de procura, finalmente, fui chamado para atender uma mulher de 80 anos. Ela sofrera uma queda e fraturado o colo do fêmur. Era uma experiência nova e assustadora, porque não tinha conhecimento suficiente e nenhuma prática de atendimento domiciliário. Isso envolveria um aprendizado mais amplo, que eu não tinha tido na faculdade. Era uma relação mais direta com o velho e também com a família. Nesse momento, estava longe de tudo que pudesse me dar segurança, estava no mar revolto da profissão cujo aprendizado mostra que necessitamos ser competentes acima de qualquer coisa. Naquele momento era por minha conta, dependeria de minhas ferramentas, que não eram tantas assim. A única segurança ilusória era utilizar o título de "doutor" como um escudo de proteção, uma fronteira que delimita hierarquicamente o imortal do mortal que sofre. Somente mais tarde fui entender que todo processo terapêutico é recíproco. Ou seja, eu sofria também, mas estava anestesiado para poder perceber isso. Meu corpo havia construído uma carapaça de proteção que me isolava de mim mesmo.


Tive de construir sozinho o meu conhecimento com relação à Geriatria. Não conhecia muitos livros que pudessem me ajudar, como também não tinha nenhum profissional especializado na cidade com quem pudesse trocar informações.


Via as possibilidades aumentarem pelo pequeno conhecimento adquirido, sentia que nessa área poderia conjugar "coração e mente", e isso me fascinava. Alguns livros se tornaram manuais do usuário. Acreditava que poderia conseguir todas as respostas nos livros, pois esse tinha sido o modo aprendido na faculdade. Todavia, logo percebi que as respostas estavam distantes, sempre faltava uma outra peça do quebra-cabeça para preencher a lacuna dos problemas que iam surgindo. O universo humano ia além dos manuais, os seres humanos não eram máquinas, portanto não adiantava usar manuais para o conserto das peças. Estes são de grande ajuda no entendimento do funcionamento das televisões, liquidificadores, carros, mas não de gente. Compreendi isso mais tarde. A minha ansiedade em gerar alívio ao outro era tão grande que buscava cegamente de modo incessante novos conhecimentos teóricos. Não olhava mais de perto para quem eu estava tratando. Assim, comecei a me interessar pelas patologias dos mais velhos. Estudava tudo relacionado ao tema, que não era tanto assim. As dúvidas eram em quantidades alucinantes

De volta às aulas

"A revelação não flui do inconsciente, mas sim o domina [...]
Toma posse do elemento humano para refundi-lo:
a Revelação é a forma pura do encontro"Martin Buber

No início do segundo ano de formado, em 1989, fui convidado a substituir uma professora na Faculdade de Fisioterapia. Tinha pouco tempo para preparar o conteúdo programático de uma disciplina que sempre foi considerada difícil para os alunos: a Neurologia. Porém, eu via o convite como um grande desafio e a possibilidade de colocar em discussão algumas indagações que permeava a minha mente solitária: a relação terapêutica. Naquele momento, já havia me questionado acerca dos altos muros erguidos na formação acadêmica, e as dificuldades que as pessoas enfrentavam ao sair da universidade. Tudo pelo fato de não conhecerem outros aspectos relacionados ao atendimento profissional. Fiquei entusiasmado com a possibilidade estudar mais amplamente e, ao mesmo tempo, compartilhar com os alunos minhas dificuldades no atendimento domiciliário.
No ano seguinte, 1990, fui convidado a substituir uma outra professora na Disciplina Fisioterapia Aplicada às Condições Sanitárias, e também ser Supervisor de Estágio na Clínica Escola da própria Universidade. Fiquei exaltado, mas preocupado. Várias oportunidades desafiadoras surgiam ao mesmo tempo. Não sabia se seria capaz de realizar tudo com tão pouca experiência. Entretanto, a idéia de possibilitar aos alunos alguma compreensão sobre atendimento mais humanizado era fascinante. Por isso aceitei o convite.
A nova disciplina se propunha a discutir a prevenção em saúde. De início fiz a sugestão de introduzir o tema geriatria como parte do conteúdo programático, o que também não foi bem aceito. Lembro-me do questionamento ensurdecedor do coordenador: "De que forma você vai ensinar prevenção em pessoas que já perderam tudo? Doença de velho não se previne, se trata!". Meu Deus, aquilo me atingia como farpas afiadas. Sentia a ignorância me ferir. Contudo, consegui convencer sobre a importância do trabalho, e fui liberado a ministrar as aulas de geriatria.
Percebia as dificuldades dos alunos em aceitar a possibilidade da recuperação e da prevenção para os mais velhos. Tinha de provar que era possível a recuperação independente da idade cronológica. Para isso, passei a filmar os meus atendimentos particulares. O que, finalmente, passou a ser visto pelos alunos com maior interesse e entusiasmo.
Continua