Livros
PEDRO PAULO MONTEIRO
A MENTE E O SIGNIFICADO DA VIDA
AO APERTAR SUA MÃO, O QUE VOCÊ SENTE? A sensação está na mão ou no cérebro? Lembro-me de que essa pergunta foi o início de uma discussão na aula de Fisiologia do curso de pós-graduação em Neurologia. De um lado, os defensores da neurofisiologia mecanicista; do outro, os adeptos da neurociência filosófica. Embora todos fossem alunos do mesmo curso, a turma se dividiu. Profissionais costumam discutir para sustentar suas opiniões.
Eu quis acalorar a discussão usando um koan que havia lido em um livro budista. O koan é um enigma zen usado na prática Rinzai para se atingir a iluminação. Ele não pode ser resolvido pelo raciocínio lógico. Para tentar resolvê-lo, o aprendiz deve ir além do raciocínio dedutivo. Existem vários koans; o que usei foi um bastante conhecido: “Qual o som de uma única mão ao bater palmas?” O silêncio de ambos os grupos foi imediato; ninguém conhecia os koans, e, portanto, acreditaram que eu estivesse achincalhando a discussão. Alguns saíram da sala me acusando de irônico. Não quis ser sarcástico; apenas acreditei que pudéssemos pensar o cérebro de outro modo que não fosse pelo pensamento linear. Mesmo porque a própria pergunta se parecia com um koan e não podia ser respondida de modo linear. Se, na Neurologia, pudéssemos usar koans zen, poderíamos fazer essa pergunta da seguinte maneira: “Ao apertar sua mão, onde está a sua mão, no cérebro ou em A mente e o significado da vida 310806.pmd 21 31/8/2006, 11:15 22 você?” Pode parecer brincadeira, mas, se filosofarmos um pouco mais, será que poderíamos responder, com certeza, onde está o nosso corpo? Na Neurologia, nem sempre foi possível obter respostas claras para os grandes enigmas. Desde Descartes (1596-1650), que acreditava que os movimentos da alma lançavam os espíritos em direção aos poros das paredes dos ventrículos cerebrais, para depois viajarem pelos nervos colocando a vontade da alma em prática, Thomas Willis (1621-1675), “viciado em abrir cabeças” como ele próprio se denominava, que insistia em descobrir os lugares secretos da mente, passando por Franz Joseph Gall (1757–1828) com sua incrível frenologia, até semana passada (março de 2006), quando escutei de um renomado neurocirurgião, e professor catedrático de uma conceituada universidade federal brasileira, acerca de uma cirurgia realizada por ele: “Eu retirei grande parte do cérebro, porém as estruturas nobres foram preservadas”. Isso só me faz refletir com tristeza que pouco se mudou. Muda-se o cenário, mas continua o mesmo paradigma. As respostas continuam sendo interpretações lógicas, de cunho dedutivo. Quando fiz o curso de Neurologia, estava na efervescente década das pesquisas do cérebro. Novas descobertas surgiam todos os dias, e, com elas, as refutações brotavam abundantes. Tínhamos novos modos de olhar e compreender o incompreensível. Cada livro tentava ser mais didático do que o outro. Para ser de fácil entendimento, tudo era simplificado. Enveredar pela trilha da mente sempre foi uma viagem fantástica. Na primeira parte deste livro, pretendo caminhar pelas absurdas, porém não menos válidas, tentativas dos diversos pesquisadores do cérebro na busca da sede da alma. Atravessaremos os pensamentos desses grandes homens e veremos que a mente não é o cérebro. Para abordar a mente, proponho trafegar em minha própria história, pois não poderia escrever sobre a mente na terceira pessoa. Assim, em vários momentos trarei fragmentos de minhas lembranças e fatos construídos em minha própria história. A meu ver, as árduas tentativas em compreender a mente sempre foram, e continuarão sendo, a busca do significado da vida. Quando comecei a me interessar pela neurologia, foi no sentido de buscar respostas para as minhas reflexões. Meus pensamentos sempre foram inconstantes acerca do que é o viver, o adoecer, e o morrer. Pelo fato de querer ser terapeuta (muito diferente de ser fisioterapeuta), o meu interesse sempre esteve no sujeito e não no objeto. Infelizmente, não consegui encontrar mestres que me fornecessem A mente e o significado da vida 310806.pmd 22 31/8/2006, 11:15 23 respostas fundamentais, mesmo que apenas fossem aproximações da natureza do real. Atualmente alcancei o entendimento de que ser humano é ser sujeito e, conseqüentemente, é ser enigma, estranho, indeterminado. Estudar neurologia não me possibilitou atingir respostas confortáveis, pois ela sempre esteve direcionada aos problemas, aquilo que não funciona bem, conhecer procedimentos para solucionar patologias. Demorei muito tempo para entender que a doença é uma peça do teatro da mente, com enredo bem escrito e personagens bem trajados. O corpo, nesse caso, é o palco em que todos podem assistir à encenação. Lembro-me de Carlos, meu primeiro paciente neurológico, um rapaz de 22 anos. Nós tínhamos a mesma idade na época. Ele sofrera um acidente de moto. Estava em alta velocidade quando entrou debaixo de um caminhão carregado de tijolos. Ele teve diversas fraturas na coluna cervical, deixando-o com uma lesão medular severa. Carlos não conseguia mexer nenhuma parte do corpo senão o pescoço. Mesmo assim, não tinha muita amplitude de movimento, porque teve de ser submetido à cirurgia de estabilização da coluna cervical. Numa das sessões terapêuticas, ele estava muito nervoso e esbravejava, sendo extremamente grosseiro com as pessoas. Quando cheguei perto dele, achei que deveria confortá-lo e, cheio de mim mesmo, fui logo lançando minha “filosofia de botequim”. É uma pena não poder lembrar meu próprio rosto, mas, com certeza, eu tentava dissimular minha fragilidade. Eu disse, com a minha mão repousando no ombro dele: “Não fique assim, eu sei o quanto é difícil para você”. O olhar dele foi inesquecível. Lembro-me, como se fosse hoje, daqueles olhos verdes de raiva. Eram olhos penetrantes e violentos. Ele parou de esbravejar por um instante e disse calmamente: “Você sabe o que é ter uma lesão medular e ficar paralisado do pescoço para baixo? Sabe o que é depender de outras pessoas para fazer as coisas para você? Sabe o que é perder o próprio corpo para sempre? Se não sabe, pare de falar merda e cale a boca seu babaca!” Aquilo veio com tanta intensidade que o meu corpo ficou anestesiado. Não pude agüentar; todas as minhas couraças profissionais se desarmaram, e fiquei totalmente nu. A minha vulnerabilidade acabava de ser violentada por palavras certeiras. Tive de me despedir e dizer à mãe dele que não podia tratá-lo naquele dia; voltaria dali a dois dias. Quando entrei no meu carro, chorei copiosamente. Não podia entender o que estava acontecendo. Sentia uma mistura de sentimento de humilhação, fragilidade, insignificância, impotência, incompetência. O ego profissional se esfacelou, não sobrando nada. Depois de alguns minutos, olhei-me no espelho retrovisor do carro e disse a mim mesmo: “Se eu não souber tratar de gente como gente, eu desisto aqui e agora”. Dali para frente, eu resolvi buscar outros conhecimentos que pudessem me formar melhor; precisava aprender a calar caso desconhecesse os sentimentos alheios. Não tive a oportunidade de estar com ele novamente; Carlos morreu dois dias após o ocorrido, por overdose de cocaína. Essa imagem mental andará comigo por muitas léguas. Carlos me ensinou, naquele ínfimo momento, o que não aprendi em anos na faculdade. É preciso renovar o aprendido desde sempre. Como dizia o grande poeta português Fernando Pessoa: Procuro despir-me do que aprendi, Procuro esquecer-me do modo de lembrar que me ensinaram, E raspar a tinta com que me pintaram os sentidos, Desencaixotar as minhas emoções verdadeiras, Desembrulhar-me e ser eu... Se esquecer é mais difícil do que lembrar, nada melhor do que aprender a ser incapaz num mundo “tão competente”, repleto de fachadas. Quase 20 anos após esse fato, percebo ainda que competência profissional nada mais é do que história de heroísmo criada para satisfazer a egos esburacados. Muitos profissionais da saúde carregam o fardo do mito do herói, acreditam ser o salvador; tudo pode ser solucionado, bastando, para isso, se atirar nas pesquisas de ponta. Somos construídos no modelo do auto-engano para nos sentirmos seguros. Quando tratamos de gente, tudo ocorre de modo tão complexo que é impossível saber a origem e o fim de um processo. O humano é indeterminado, porquanto impossível de se desvelar por completo. O desdobramento de uma história só pode ocorrer no contexto presente. Mesmo assim, tudo não passa de história criada por nossas mentes.
A meu ver, se as histórias não fossem criadas, muitos não suportariam o tranco do dia-a-dia da profissão. Porém, até aonde vai o auto-engano para nos sentirmos satisfeitos? A Neurologia é tão enigmática quanto os koans. Buscar respostas não é o mesmo que ter certeza de possui-las. Ao se aproximar de certezas, cai-se em paradoxos. “A natureza resguarda o ventre escuro donde gera incansavelmente o que vemos, ouvimos, degustamos e dizemos.”A ciência se constitui na procura de respostas, e não em conclusões absolutas. Atualmente os grandes cientistas aceitam que suas teorias são apenas descrições da realidade. Recebemos a herança amarga da certeza. Desde Aristóteles, viver na incerteza e ser transitório se tornou inaceitável. O incompreendido foi fragmentado e analisado a fim de se obter clareza. Quanto mais se corta e isola, mais se afasta do contexto. O que não é contextual não pode ser real. Em nossos dias, os detalhes são enaltecidos, e o que pode ser visto e analisado é considerado verdadeiro, enquanto o invisível se tornou somente crença. O ego cartesiano é exaltado em detrimento da natureza do vir-a-ser heraclitiano. O limite do conhecimento passou a ser inaceitável para as mentes que se alimentam de poder. Isso é tão freqüente que, nos discursos diários, perder o poder de conhecer passou a significar perder o próprio paraíso. Muitos afirmam que a divindade habita egos. Quanto maior a certeza, maior o jogo das sombras. A dança das imagens mentais engana, de modo que não conseguimos perceber que estamos sendo joguetes na mão da mãe natureza. Viver é encenar roteiros escritos por nós mesmos. Assim, pretendo mostrar, na segunda parte deste livro, que somos livres para criar nossas histórias. Nada pode ser trazido para dentro de nós a não ser em forma de imagens. São essas imagens mentais que nos fazem ser quem somos e ver o mundo como vemos. Assistir ao espetáculo da vida é construir mentalmente o próprio espetáculo enquanto ele se desenrola. No processo do vir-a-ser, nada sabemos, só podemos criar histórias para a nossa satisfação. O que nos faz humanos é ser munidos de consciência e, portanto, saber que sabemos. Na terceira parte, quero enveredar pela consciência a fim de trazer à luz o que nos torna conhecedores de nossa própria realidade. Porém, conhecer a realidade de maneira objetiva se tornou um problema profundo, principalmente após as descobertas da nova física. Ser parte daquilo que observamos revelou nossa limitação, e a pretensão de conhecer o mundo de modo impessoal passou a ser um grande equívoco. Nunca estaremos livres de nossas lentes e sempre vamos estar à mercê de nossos filtros. A mente humana é um teatro em que são encenados símbolos, e o resultado final de cada ato é o corpo (fresh symbol), paisagem de nós mesmos. O corpo nos fornece a nitidez de nossa experiência. Só a experiência é real? Dentro de nós, existe uma potência, um modus operandi do vir-a-ser. Isto é, na mente, existe o que queremos que exista. Ter uma mente é ter uma escolha. Na potência, tudo pode ser construído; porém, a construção será sempre inacabada, incerta e imperfeita. A dúvida engendra um movimento à frente, rumo à evolução da espécie humana. O real é apenas um conceito, símbolo criado por nós mesmos. A sensibilidade do corpo permite a ele reagir ao ambiente, aprender e acumular experiências. A estrutura humana evoluiu e aprendeu a decifrar a realidade baseada principalmente na compleição fornecida pelos sentidos. O que não se pode sentir passou a ser visto como irreal. Contudo, a evolução da mente humana propiciou a articulação de códigos simbólicos. Daí surgiram expressões artísticas, escopos religiosos, filosofias existenciais, aventuras reflexivas. Novos jogos da natureza se estabeleceram, e passamos a transcender o corpo para atingir o numinoso. Quanto maior o conhecimento, maior o questionamento, e mais nos chafurdamos no lodo da dúvida de quem somos nós, por que somos como somos, se o que está na mente é real, se podemos acreditar naquilo que sentimos, e se desconfiar do real é duvidar de nossa própria existência. O propósito deste livro não é preencher lacunas, e sim abrir espaços para outras construções criativas. O humano é inacabado; portanto, seria impossível determinar o indeterminado. De qualquer modo, é possível produzir novos conceitos, novas maneiras de ver o invisível. A ciência da física das partículas elementares tem se mostrado um instrumento hábil no auxílio do conhecimento daquilo que nossas sondas sensoriais não podem captar. A teoria da incerteza de Heisenberg já minimizou muitas de nossas pretensões científicas. Porém, muitos ainda não querem acreditar nisso, deixando de lado o micro para se voltar apenas ao macro. Quando retiramos parte do real, ele deixa de ser real. Viver na dúvida é também uma possibilidade. Ficar menos poderoso é também sofrer menos. Quando o poder acaba, termina também o sofrimento de não almejá-lo. Na incerteza e no inacabado, está a história de todos nós humanos. Enquanto vivermos, estaremos em busca de desdobrar conhecimento em significado. Isso nos gera a motilidade, um movimento interno de origem desconhecida que nos propicia coragem em continuar na senda do desvelamento. Não podemos viver sem significado. Fomos dotados de consciência; no entanto, é preciso desvelar, cumprir, criar, decidir. Enfrentamos momentos difíceis, nos quais somos convencidos a comprar alicerces prontos. Sem decisão, não há responsabilidade; sem responsabilidade, não há vida. Sem a oportunidade de escolha, ficamos à deriva, somos cerceados à opinião das massas. Atravessamos uma época difícil cujas condutas destrutivas, em decorrência do paradigma competitivo, nos geraram medo de apostar no novo; a lei da sobrevivência se firmou no modelo equivocado do vencer pela eliminação do adversário; a incerteza, que sempre produziu saídas criativas, se transformou em desesperança e posturas apáticas; a experiência da beleza passou a ser vendida em lojas de departamento, enquanto a televisão e as redes virtuais da internet nos enganam com promessas de um mundo seguro e sólido; as religiões criam modelos de heróis salvadores baseados na cultura cinematográfica de Hollywood; a transcendência ao numinoso se tornou caminho simples a partir do auxílio de substâncias alucinógenas; o cérebro se transformou em uma máquina computacional cujo programa pode ser construído de acordo com as exigências do freguês; as universidades se interessam pelo conhecimento vendido; assim, o importante é obter o certificado, um ticket que permite a livre passagem para o mundo profissional. Enfim, chegamos à era do paradigma pós-humano, referenciado no avanço tecnológico cujos instrumentos modernos fornecem todas as certezas, quantificando e somando medidas precisas, fundamentadas em uma lógica linear que tudo pode. Nessa etapa, acredita-se que o humano em si é insuficiente, e a forma biológica, inadequada às demandas do meio. Por isso, é necessário reprojetar o humano de maneira competente a fim de que ele se torne uma máquina exímia, sem erros ou perturbações. Estamos mais próximos da ficção do que daquilo que podemos denominar de real. Nos dias de hoje, o simulacro se tornou verdade absoluta. Pensar o humano sem refletir acerca da mente e da consciência não faz sentido. Para lograr o conhecimento, será preciso se deparar com o invisível, o intangível. Porém, o que elude a percepção merece atenção? A meu ver, sem descrever o invisível, é impossível atingir o visível, a matéria, o corpóreo. Sem corpo, não há mundo, só sonho sem forma. Como reaver a forma perdida? Pela re-volta e pela responsabilidade. Voltar para dentro em busca de si mesmo a fim de responder às demandas da vida. Esse é o propósito crucial de todo ser vivo. No visível, tudo se mostra simples, porém repleto de buracos. Ao enveredarmos pela senda do autoconhecimento, nos deparamos com algo mais profundo e observamos que o visível é somente a ponta do iceberg. O veladotem muito a nos ensinar. Por isso, não basta conhecer o cérebro para saber quem somos. Repetirei, diversas vezes, que o cérebro não é a mente, pois a proposta deste livro é buscar sentido e elucidar equívocos. Convido o leitor a ir além do neocórtex. Não devemos aquiescer ao velado sem tentar desdobrá-lo. Mesmo que saibamos que a mente constrói histórias para nos satisfazer, é preciso se revoltar e ser responsável. Se a afirmação de alguns cientistas quânticos estiver certa, quem sabe encontraremos aqui respostas apaziguadoras para o nosso caminho. Se tudo sai antes de nós para depois podermos perceber o que está fora, quem sabe descobriremos que o significado da vida está no interlúdio da concretização; no espaço entre o eu e o não-eu, no trânsito da relação humana. Portanto, quero propor, neste livro, uma viagem pelos escombros de minha própria mente. Não quero enunciar caminhos sem que eu possa estar neles. Não posso conceber a mente do outro, pois nela existe algo a mais, inacessível a minha compreensão. Sendo assim, quero propor aqui uma jornada por minha própria história, lembranças da infância de um garoto curioso que buscava atravessar a janela do quarto a fim de descobrir o que existia fora, desafiando o próprio aprendizado, arriscando perder as raízes maternas. Um garoto que buscou esculpir paisagens belas e sensíveis para viver melhor. Creio que somos capazes de romper com todas as forças que nos aprisionaram, mesmo que essas forças sejam familiares. Nascemos sozinhos e viveremos sozinhos, porque ser é um vir-a-ser contínuo. Não há como escapar de nós mesmos senão pelo modelo do auto-engano. As sensações e as manifestações de meu corpo, de toda uma época, estão vivas. Envelhecer me permitiu ter uma perspectiva totalmente diferente do tempo. Por isso, buscar respostas em mim mesmo é convidar o leitor a estar ao meu lado, desvendar a si mesmo. Ninguém constrói caminhos para estar isolado; quero compartilhar com você minha trajetória e meus questionamentos, mesmo sabendo da presença infinita de minha solidão.