Livros
PEDRO PAULO MONTEIRO
QUEM SOMOS NÓS? O ENIGMA DO CORPO


Se viemos ao mundo com um enigma viemos também munidos de meios para desvendá-lo. Não seríamos privilegiados com a consciência se não pudéssemos compreender a nós mesmos. Entretanto, é impossível descobrir todos os segredos, somente os mais relevantes.

Atravessamos uma época em que temos mais respostas do que bons questionamentos. A informação está à mão de muitos, porém poucos conseguem construir o conhecimento. A construção depende de perguntas corretas. Se não soubermos fazê-las não chegamos às respostas adequadas.

Um enigma é algo de difícil explicação, um mistério. Há em nós uma curiosidade imanente que instiga a vontade da manifestação do desconhecido. Vivemos a incerteza, e ela nos proporciona o salto à frente. Viver é ser desafiado constantemente.

Nos desafios cotidianos o corpo é impregnado pelas ambições, exigências, disputas, equívocos, julgamentos, preocupações, ilusões. O corpo capta e armazena o lixo caótico, como uma esponja absorvente. Muitas pessoas ficam distantes, cegas para a própria identidade profunda. Então, o corpo para ser ouvido grita por meio dos sintomas. Quem não suporta a própria fragilidade mune-se de drogas poderosas para silenciar a dor, pois os sintomas interferem nos projetos pessoais e precisam ser eliminados. Freqüentemente, as pessoas queixam-se de dores nas costas: o esconderijo da sombra. Elas costumam jogar o lixo na lixeira e tampar para não entrarem em contato. Entretanto, o lixo é carregado, o peso fica tão insuportável que o corpo protesta. O corpo possui simbolismo e força. Em cada ponto um universo.

Por que as pessoas correm tanto? Onde querem chegar? Estas são perguntas com várias direções. A resposta é uma livre escolha. Muitos buscam explicações fora do corpo para sanar os tropeços e as dificuldades internas. Contudo, não ficam satisfeitas com as respostas. Se estivessem seriam mais harmoniosas, menos sintomáticas.

Infelizmente, vivemos em um mundo ruidoso que quer calar nossa voz interior, intencionado a nos transformar em marionetes da mídia sem espontaneidade e autenticidade. As pessoas vão longe com o jogo virtual e não sabem retornar. A falta de paz encontra-se no excesso de movimento. Quando há afastamento do centro há desarmonia. De onde partir? Esta não é a melhor pergunta, porque gera mais movimento, em direção a alguma coisa fora. A pergunta correta seria: como estar?

O corpo é um ponto de referência no tempo e no espaço, mas não é matéria densa inerte. Matéria é a manifestação de energia, que por sua vez, é poder de interligação entre átomos que constituem a matéria. Energia é a ação de um átomo que passa para o outro. Em suma, não somos matéria sólida, sem movimento, somos energia em ação. Portanto, precisamos cuidar do movimento.

Atualmente conhecemos outros modelos de realidade. O mundo deixou de ser quadrado e somente matemático. A ciência começa a dar seus primeiros passos rumo à poesia. A poesia utiliza-se de uma linguagem metafórica que tem ritmo, pulsação. Do mesmo modo, o corpo humano existe porque tem ritmo e pulsação sustentado por campos eletromagnéticos. Sabemos que a matéria é constituída por partículas minúsculas em um vasto vazio do espaço, unidas por campos elétricos. Em síntese, o corpo é plástico porque é energia em ação. Não podemos entender a natureza a não ser por uma linguagem metafórica. A lógica é restrita a determinados campos do saber. Isso pode parecer, como alguns de meus alunos costumam dizer: "viagem". Eles querem dizer com isso que estou fora do âmbito da "realidade" newtoniana. Felizmente, alguns conseguem embarcar comigo nesta "viagem" estonteante, fluindo pela arte do conhecimento além dos olhos humanos.

Um enigma tem sentido ambíguo. Por isso quanto mais os cientistas se aprofundam na matéria tanto mais se confundem na complexa rede de interligação de suas partes. O corpo é o enigma porque está em processo, é uma estrutura inacabada. A interdependência e interligação de suas partes formam a realidade essencial de cada indivíduo. Assim, cada corpo tem a própria linguagem. Quem ouve o que ele tem para dizer leva uma vida mais consciente.

Se o corpo é o enigma, a chave para desvendá-lo deve estar nele próprio. Se assim for, chegaremos a conclusão de que desde o início já sabíamos de tudo. O corpo é instância de conhecimento. É na ação que encontramos a nós mesmos.

Há anos trabalho com pessoas que apresentam deficiências de movimento. Verifico que as limitações são mais circunstanciais do que dificuldades corporais em si. O maior deficiente é aquele que alimenta a própria limitação a fim de conseguir um sentido. Muitos costumam marginalizar os próprios corpos em busca da condescendência alheia. Somente é possível o autoconhecimento quando o corpo participa da reflexão profunda. Se ele for excluído não sobra mais nada.

No campo da investigação científica ainda há um grande dilema: conhecer a ponte que liga a mente ao corpo. Não existe uma ponte que faça tal conexão. O corpo e a mente são faces da mesma moeda.

O pensamento científico que separa e isola era tão marcante que, como fisioterapeuta, trabalhando com o envelhecimento humano, não podia conceber a possibilidade de mudança do corpo de uma pessoa de 80, 90 ou 100 anos de idade. Havia aprendido que a vida reserva a não-mudança aos mais velhos. Mais tarde fui compreender que a vida não tinha nada a ver com isso. Era o mecanicismo científico que encarcerava as pessoas mais velhas atrás das grades etárias. Existe uma sabedoria inerente ao corpo que a ciência cartesiana não elucida. E mesmo que dê uma resposta será somente mais uma resposta.

Quando escrevi o livro "Envelhecer: histórias, encontros e transformações", minha intenção era mostrar que envelhecer é um processo de transformação do humano, portanto circunscrito a todos nós, independente da idade cronológica. Infelizmente, algumas pessoas com modelos fracionários de conceber o mundo ainda insistem em dicotomizar corpo e alma. Costumam dizer: "meu corpo pode ser velho, mas minha alma é jovem". A frase que ouço com freqüência nada mais é do que um preconceito etário, semelhante ao preconceito racial quando dizem: "ele é negro mas com alma branca". Isso é completamente despropositado. É importante dizer que não precisamos nos esforçar para ser. Pois o ser autêntico não se esforça, ele é. Somos mais que pensamos. Portanto, classificar o corpo pela idade cronológica é um absurdo, é não respeitar o humano em sua unidade.

Atualmente vivemos a era do corpo jovem, forte, saudável, belo. Vivemos também a era da estética sem ética, mudando os contornos do corpo como decretam as imagens virtuais. A mídia preconiza um modelo e as pessoas obedecem sem questionar. Mais uma vez temos respostas sem perguntas. Quem não sabe questionar tem medo de ficar à deriva, receiam sucumbir ao ridículo dos "sem-forma". Acredito que seja por esse motivo que as pessoas sentem o "pânico da idade".

Existe um padrão de beleza? Prefiro dizer que a beleza está na característica insubstituível de cada um. Não acredito em um único padrão de beleza. O que procuramos está além da forma física. O que buscamos talvez seja a nossa história perdida, saber o que fazemos aqui.

Este livro pretende mostrar que não somos corpos isolados no tempo e espaço, mas uma unidade complexa em convivência. A vida é uma arena de aprendizado. Para adquirir a lição temos que prestar atenção aos sinais e ritmos da natureza. A natureza é cíclica, portanto, o corpo é processo criativo, é potencialidade latente, uma fonte de recursos para atingirmos a nós mesmos.

Como terapeuta do corpo, sinto-me como o artista que pinta ou exerce a arte da escultura. Até então não havia compreendido que o processo terapêutico é um manancial de possibilidades artísticas. Um corpo é sempre moldado pela mão que o toca. Toda arte é a representação da essência do artista. Como escreve Jean Lescure: "o artista não cria como vive, mas vive como cria". Se todos nós estamos unidos e somos sustentados por um campo eletromagnético, posso afirmar que sou o escultor e a obra ao mesmo tempo. Isso me dá vida e me proporciona saber quem sou. É na arte do viver que me descubro, procurando facilitar o processo de descoberta do outro. Porém, não sou o protagonista, mas co-participante do ato de criar. Carrego em meu corpo um pouco da história de cada pessoa que atendo, e sei que elas levam consigo uma parte de mim.

A obra de Alberto Giacometti, escultor e pintor suíço, nos absorve pela noção que o artista tem da forma. Giacometti, homem solitário, em seus desenhos e esculturas finas e alongadas, evidencia a essência, a vitalidade que reside em cada um. Por meio de sua obra ele se interroga, e nos faz a pergunta adequada "quem somos nós?"

No limite do visível ele define os contornos, tenta desvelar a semelhança no outro, a dignidade do humano, a essência, talvez a luz. A obra de Giacometti me remete a uma resposta: Não somos cruéis. A crueldade humana surge na ausência do amor. Ele consegue ver a beleza em tudo porque capta a força coesa da natureza humana em sua obra. Como escreve Jean Genet:

a arte de Giacometti não é, portanto, uma arte social por ele estabelecer entre os objetos um laço social – o homem e suas secreções -, será antes uma arte de mendigos superiores, a tal ponto puros que apenas o reconhecimento da solidão de cada ser e cada objeto os uniria. "estou só", parece nos dizer o objeto, "capturado numa necessidade contra a qual você nada pode. Se sou apenas o que sou, sou indestrutível. Sendo o que sou e sem reservas, minha solidão conhece a sua.

Como terapeuta do corpo vejo-me como Giacometti. A sensação aflui às pontas de meus dedos, a paisagem do corpo se descortina, e as minhas mãos vivem, mais do que meus próprios olhos.

Às vezes sinto-me solitário com as pessoas que toco, uma distância de mim mesmo. Tocar é adentrar um espaço silencioso. Coloco-me distante porque a solidão me oferece perspectivas. Posso sair do meu espaço para dançar ao ritmo do corpo que está sendo tocado. O polegar apalpa o músculo e o gira, organiza, desperta, dando à forma mais consciência de vida.