Livros
PEDRO PAULO MONTEIRO
ENVELHECER: HISTÓRIAS, ENCONTROS E TRANSFORMAÇÕES
Sente-se diante dos fatos como uma criança e prepare-se para sacrificar todas a noções preconcebidas, siga humilde por toda parte e por todos os abismos a que a natureza o levar, ou você não aprenderá nada.

(T. H. Huxley)

Um observador que se sentar à beira de um rio para contemplá-lo em silêncio verá que as águas correm sempre e sempre, em um movimento ininterrupto. Poderá constatar também o quanto o fluxo do rio é mantido ou acelerado pelos obstáculos encontrados pelo caminho, como galhos de árvores, rochedos ou mesmo a estreiteza das margens em determinados pontos do seu percurso. Estes obstáculos, porém, nunca poderão cessar o fluxo do rio, ao contrário, possibilitarão novos modos de ritmo, evidenciando sua força e beleza.

No fluxo do rio não há tempo nem lugar, apenas continuidade. O rio está em todos os lugares ao mesmo tempo, portanto, o tempo linear – passado, presente e futuro – não pode fazer parte dele. O que existe é o momento presente aos olhos do observador, que é um ser situado no espaço e no tempo, criado por ele mesmo como ponto de referência. Desta maneira, o que ele pode conter é apenas aquele pequeno recorte do rio, não sendo possível antever o seu destino. Mas a dúvida persiste: qual a direção do rio? Qual o destino das águas? A resposta é simples: não podemos saber, pois as águas só possuem a certeza da mudança a cada obstáculo, a cada bifurcação encontrada em seu trajeto. A única certeza é que o rio somente existe porque há um observador para contemplá-lo, caso contrário, ele desapareceria.

Entretanto, a dúvida persiste e o observador é instigado a buscar respostas para compreender o que lhe falam as águas. Toda dúvida gera ação e, através de seu corpo, o observador caminha em direção à experiência que se espiritualiza em conhecimento, ou melhor, ele dependerá do visível para compreender o invisível.

O invisível é a própria imagem refletida na água, quando o observador aproxima o seu rosto em direção ao rio. Ele não pode alcançá-la, mas percebe que parte dele pertence ao rio, e que mesmo fluindo o rio levará consigo sua imagem. Do mesmo modo, o observador percebe que o rio está dentro dele porque foi possível contemplá-lo, formando assim uma unidade. Isto é, se o observador contém dentro de si o rio, o rio também contém o observador. Assim, o observador encanta-se com as águas cristalinas preenchendo o seu ser, percebendo agora estar pertencendo ao absoluto, a totalidade. Ambos são possibilidades, sem fronteiras, são fluxos dinâmicos revelando o mistério da vida.

Este é o princípio da existência, composta por movimento, ritmo e dança compartilhada. Por trás desse movimento encontra-se a certeza da mudança, ou melhor, enquanto o observador viver, ele estará marcado pela ação e transformação. Então, pela escuta do som das águas do rio, o observador poderá, finalmente, compreender que a vida é o próprio rio admirado por ele, e a permanência não pertence em hipótese alguma a ele.

A metáfora do rio poderá ser encontrada em vários pontos desse livro. Eu decidi por utilizá-la porque a metáfora nos possibilita romper momentaneamente com nossa lógica linear de pensamento, abrindo passagem para a compreensão da linguagem da natureza, que se fundamenta na relação que mantém coeso o tecido de todos os elementos vivos, e não nas partes isoladas pelas quais muitos ainda acreditam ser a única e verdadeira forma de entender a natureza viva. Assim, tentarei esclarecer que a vida humana possui o mesmo processo do fluxo do rio. Um processo incessante, formado por ritmos singulares em que surgem obstáculos, correntezas, redemoinhos, destino incerto, beleza e força contínuas.

Quando me refiro à vida, remeto-me diretamente ao processo do envelhecimento, porque envelhecer e viver são processos indissociáveis. Desenvolvemos uma infinita rede de relações por meio de várias histórias que colhemos e tecemos durante todo o percurso de nossas vidas. Estamos desde a concepção, envelhecendo e vivendo, vivendo e envelhecendo, nunca sendo os mesmos, porque envelhecer é um processo contínuo de transformação do ser humano como único em seu tempo vivido.

Este livro surgiu a partir de um questionamento profundo, quando observava mudanças consideráveis na estrutura corporal dos velhos atendidos por mim. Percebia que, além da técnica terapêutica utilizada, algo mais existia, mas não podia compreender, não conseguia enxergar com o meu olhar mecânico-funcional. Precisava aproximar o meu corpo em direção ao rio da vida para ver minha própria imagem refletida para, finalmente, poder escutar o que me falavam as águas.

Lembro-me de minha primeira experiência terapêutica, quando fui chamado para atender a domicílio uma mulher de 80 anos, que havia sofrido uma queda e fraturado o fêmur. Era uma experiência nova e assustadora porque não tinha muito conhecimento e nenhuma prática de atendimento domiciliar, pois isso envolvia um aprendizado muito mais amplo, que eu não havia obtido na faculdade de Fisioterapia. Era uma relação mais direta com o velho que sofria e também com a sua família. Nesse momento, estava longe de tudo que pudesse me dar segurança, estava no mar revolto da profissão, onde aprendemos que precisamos ser competentes acima de tudo. Agora era por minha conta, dependeria de minhas ferramentas, que não eram tantas assim. A minha única segurança ilusória era a utilização do título fictício de "doutor" como escudo de proteção, uma fronteira que delimitava hierarquicamente o imortal do mortal sofredor. Só mais tarde fui verificar que qualquer relação terapêutica é um processo recíproco, ou seja, eu sofria também, mas estava anestesiado para poder perceber o meu próprio processo, pois o meu corpo já havia construído um escudo de proteção.

Hoje percebo o quanto a fragilidade e a insegurança diminuem a possibilidade de conhecermos a nós mesmos. Por isso, assumimos atitudes profissionais preestabelecidas para sermos aceitos dentro de determinados modelos. Modelos estes que promovem não somente o enrijecimento do corpo como também o encarceramento da alma, retirando-nos por completo a capacidade intrínseca de criação e inovação, tornando-nos insensíveis e menos humanos.

O tempo passava e, aos poucos, ia desconstruindo sozinho o aprendizado recebido, que classificava os velhos como "porcelana". Se não houvesse cuidado, poderia quebrá-los a qualquer momento. Ao mesmo tempo, construía uma nova forma de atuar. Começava a ver as possibilidades aumentarem, percebendo que o atendimento a estas pessoas só poderia dar resultados satisfatórios se fossem conjugados conhecimento, coração e mente. E isso me fascinava. Porém, percebia a distância de algumas respostas e sempre faltava uma outra peça do quebra-cabeça para preencher o entendimento dos problemas que iam surgindo. O universo humano ia além dos manuais, porque os seres humanos não eram máquinas, como tinha aprendido, portanto, não adiantava usar manuais. Estes são de grande ajuda no entendimento do funcionamento das televisões, liqüidificadores, carros etc, mas não de pessoas. Isso só fui compreender mais tarde, pois minha ansiedade em gerar alívio ao outro era tão grande que buscava cegamente, de forma incessante, novos conhecimentos teóricos, sem olhar mais de perto para quem eu estava tratando. As dúvidas eram cada vez mais em proporções alucinantes.

Retomando a história de minha primeira experiência como profissional, a "paciente" – esta era a forma de denominação dos meus parceiros de aventura terapêutica – atendida por mim, era uma mulher que desde a fratura do fêmur encontrava-se acamada e abandonada. Morava com o filho, a nora e os netos. Ficava em um quarto pequeno e escuro nos fundos da casa e, junto dela, havia uma máquina de costura "Singer" – aquela com estrutura de ferro, pintada de preto, com pedal mecânico – velha e sem uso há anos, uma máquina de lavar roupa enferrujada e um armário onde guardavam tudo aquilo que não mais possuía valor. O espaço do quarto era pequeno para tantas coisas sem importância, esquecidas no tempo.

Quando cheguei no primeiro dia, confesso, fiquei assustado com o aspecto apresentado por aquela senhora, pois não entendia como em uma casa de aparência tão boa e ampla, com três carros novos parados na garagem, com uma belíssima e vasta sala de estar e jantar, pudesse ter um cômodo tão pequeno para guardar o passado, sem nenhuma preocupação. Este foi o meu primeiro contato com a exclusão e desvalorização de uma história de vida.

Todavia, lá estava ela, deitada envolvida por um cobertor xadrez cinza empoeirado, com os cabelos compridos caindo sobre o rosto ressecado, apresentando algumas verrugas senis que quase desapareciam nos sulcos cavados pelas rugas. Não tinha dentes e sua saliva misturava-se com o encardido da comida que caía sobre ela, porque nunca se alimentava na mesa junto a família.

Entrando no quarto, ela me cumprimentou com um olhar distante, fazendo um grande esforço para levantar a cabeça e com certa dificuldade em abrir os olhos, porque seu filho havia acendido a luz, que sempre era mantida apagada. A janela permanecia fechada o tempo todo, mesmo em dias ensolarados, como naquele dia. Não sabia há quanto tempo estava sem ver a luz do sol. Achei tudo tenebroso e deprimente, mas o meu aprendizado profissional determinava que aquilo "fazia parte da idade", ou seja, era "assim mesmo". Não poderia me "envolver emocionalmente" com a situação. Deveria apenas pensar, naquele momento, no meu plano terapêutico, pois tinha sido chamado com esta finalidade. Fui logo arregaçando a manga da camisa para colocar em prática o meu conhecimento insuficiente, e era eu que deveria dirigir a embarcação.

O poder era fascinante mas, ao mesmo tempo, a minha estrutura frágil e sensível precisava enrijecer para suportar a "responsabilidade". Não entendia ainda que a responsabilidade é simplesmente a habilidade de responder e não de reter a resposta. O controle, pertencente ao poder, me levava cada vez mais ao desconhecimento de mim mesmo.

Aos poucos, essa "senhora", que não conseguia nem ficar sentada, foi restabelecendo suas atividades, foi retomando sua verticalidade e, finalmente, voltou a dar os seus primeiros passos rumo à novas descobertas. A janela não ficava mais fechada, já ia ao banheiro e comia sozinha. Entretanto, começou também a requerer maior atenção com a sua aparência. Queria que seu filho comprasse melhores roupas, uma dentadura nova. Queria melhores cuidados com suas unhas e cabelos, solicitando a visita de uma manicure e cabeleireiro, como também queria voltar a utilizar o seu batom vermelho.

Era uma grande transformação. Inicialmente a família parecia estar satisfeita, porém as solicitações continuavam a aumentar, queria sair para almoçar com o filho e os netos nos finais de semana, como também acompanhá-los em seus passeios. Esta interferência começava a não ser vista com bons olhos pela família, que tentava a todo custo persuadi-la de que os passeios exigiriam muito dela, e como ela era uma "senhora de idade", isso talvez pudesse trazer algum efeito nocivo para sua recuperação. Mas ela insistia em seus pedidos sem muito sucesso. Passaram, então, a pensar na possibilidade dela estar ficando "esclerosada", porque isso não era do "seu feitio". Não podiam compreender e muito menos aceitar a transformação daquele velho corpo que agora buscava novas formas de viver. Estava reencontrando a liberdade perdida, mas isso tinha o seu preço.

À noite levantava para ir ao banheiro e à cozinha beber água. Este comportamento independente estava deixando sua família transtornada e muito preocupada, pois estava sendo muito difícil "dominá-la", como diziam. O movimento do corpo de um, sempre vem com a certeza de mobilizar o corpo do outro, e isso era demais para eles. Relatavam o medo dela sofrer novas quedas e, então, decidiram colocar grades altas na cama para impedi-la de sair à noite e também durante o dia, mas sem resultados, pois seu corpo era sábio o suficiente para conseguir transpor aquelas barreiras.

Pouco tempo depois resolveram tomar uma atitude drástica, interromper o tratamento, porque a única explicação para aquela mudança radical seria a influência do tratamento. Fiquei transtornado com aquela atitude cruel, perdi o chão. Sentia-me confuso e perdido em meus princípios, não sabendo distinguir o certo do errado, o bom do ruim. Sempre acreditei que somos responsáveis por nossas relações, o que não sabia era que não estamos sozinhos nelas e, portanto, deveria respeitar o movimento daquelas pessoas. Ainda não compreendia a complexidade familiar, não enxergando-a dentro do processo terapêutico.

Alguns meses depois soube de sua morte. Seu aprendizado estava cumprido, deixando em mim não apenas uma lembrança, como também uma grande saudade.

Sem me alongar, gostaria de deixar aqui registrado uma outra experiência importante que me levou a compreender a relação terapêutica fundada no princípio sujeito-sujeito, que discutirei mais adiante. Este princípio é a força motriz de qualquer processo de transformação corporal daqueles que participam de uma convivência.

Recordo-me ter tido quase todos os aparelhos utilizados na prática fisioterápica, com a finalidade de aliviar a dor de uma mulher de 70 anos que apresentava um quadro de artrite reumatóide. A doença havia se manifestado em sua juventude e continuava na "velhice" castigando aquele corpo. Acamada há quinze anos, possuía deformidades marcantes e dores contínuas. Seu sofrimento era demasiadamente intenso, provocando o rompimento da relação com o seu marido e seus dois filhos, porque não conseguiram suportar tamanho infortúnio. Restava-lhe apenas a companhia fiel de uma empregada doméstica que mantinha os seus princípios fundamentais de cuidado e atenção contínua.

No primeiro encontro, não conseguia saber por onde começar a tratá-la, porque o seu corpo estava muito comprometido pelas deformidades articulares características da artrite. Em cada articulação, as dores sinalizavam o impedimento da aproximação de minhas mãos; a sua pele transparente, devido ao uso prolongado de corticóides, ardia na simples tentativa do toque; os ossos pareciam de vidro; as mãos tinham deixado lugar para as garras; a beleza desaparecia na depressão que a consumia. Jamais pude imaginar tamanho sofrimento. Nem nos livros tinha visto um caso como aquele. Não conseguia ver nenhuma chance de melhora para ela. Meu pensamento ficava transtornado; buscava técnicas possíveis para minimizar suas dores, mas tudo era em vão.

Vivia pensando em algo para lhe dar algum alívio, mas o quê? Esta era a pergunta que me acompanhava durante todo o tempo. Comprava todos os novos aparelhos que prometiam abolir a dor. Eram fios para todos os lados, e ela ia experimentando, através dessas técnicas, sensações de formigamento, alfinetada, choque, frio, calor e assim por diante. Tentava de tudo, mas o máximo que conseguia era apenas um pequeno e insignificante alívio.

Aos poucos, fui percebendo o dinamismo de seu processo e, também, através de estudos exaustivos, resolvi eliminar toda aquela parafernália de fios e técnicas, que não estavam servindo para nada, para me debruçar atentamente em sua história. O que ela estava necessitando era de uma aproximação mais delicada e sutil de minha parte, um envolvimento mais caloroso que nenhum aparelho poderia lhe proporcionar.

Percebi que o equívoco estava na ansiedade para atingir o meu "objetivo terapêutico", não respeitando seus limites bem demarcados, e isso fazia o meu toque ser "pesado", como ela mesma dizia. Passei a vê-la mais de perto, considerando suas queixas e rancores com maior reverência. Contudo, somente a partir do momento que senti o verdadeiro sentido da compaixão foi possível mudar aquele quadro. Enquanto não havia "envolvimento", não poderia haver compaixão. Então, somente quando essa força passou a tomar forma dentro de mim, pude perceber que ela era exatamente como eu. E se eu não queria sofrer, acreditando no meu direito à felicidade, ela também tinha esse mesmo direito.

O equívoco estava em não aceitar encarar o sofrimento, tanto o dela quanto o meu, utilizando-se das técnicas terapêuticas ineficazes para esconder de nossos próprios olhos a dor que sentíamos.

O dia do verdadeiro encontro aconteceu quando ela, não agüentando mais o seu infortúnio, resolve desistir. Foi a primeira vez, desde então, que disse não querer mais viver. Nesse dia, estava inquieta e profundamente triste, olhos lacrimejantes, corpo tenso e com muita dor, tomado pela angústia e depressão. Esta era uma situação que eu nunca havia presenciado. Fiquei confuso e não tinha solução para o seu caso, pois acreditava também, de certa forma, que a morte pudesse ser o melhor caminho para o desenrolar de sua história. Ao mesmo tempo, sentia-me comovido e este movimento conjunto irrompeu-se em algumas palavras que não pude conter: "Eu respeito sua decisão, mas gostaria de lhe falar o quanto você representa para mim. Foi através de você que consegui olhar melhor para mim. Sinto agora que sou mais gente, mais humano, porque aprendi a sofrer com o seu próprio sofrimento. Antes, talvez, eu fosse como as pedras, rígido na forma, esperando do outro algum pequeno gesto de contemplação. Por isso queria lhe fazer um pedido, talvez o último, mesmo que queira desistir de si mesmo. Me dê permissão para eu tentar resgatá-la desse mundo escuro e sombrio no qual está vivendo?"

Com um gesto simples, olhou em meus olhos, e, abrindo seus braços, pediu-me um abraço. Ela nunca havia permitido muita aproximação, não tinha muita habilidade com afetos. Aquele momento foi diferente de todos os outros momentos de nossa relação. Aproximei-me dela e com toda sutileza a abracei. Choramos juntos, baixinho, e nossas almas puderam se encontrar, entrelaçando-se no silêncio daquele quarto.

Após algumas semanas, foi se sentindo melhor, encontrando alívio para as suas dores, seus movimentos foram alcançando maiores amplitudes dentro de sua própria limitação. Meses depois, para a minha surpresa e dos médicos que a acompanhavam, iniciou alguns passos com a ajuda de um andador, reencontrando sua independência e liberdade aos poucos.

Este foi um dos maiores aprendizados obtidos em minha vida profissional, mudando por completo minha prática terapêutica. A partir da grande oportunidade de fazer parte daquele mundo solitário, onde aquele pequeno corpo chorava silenciosamente pelos cantos do seu quarto frio e escuro, passei a ser um terapeuta da corporeidade1.

Através desse encontro fui capaz de compreender que pertencia também àquela história e, apesar de minha percepção limitada, pude entender que todos somos seres sem fronteiras, pertencendo a um mundo no qual todas as coisas são infinitamente interligadas.

Infelizmente, as pessoas ainda aprendem a conceber o mundo por um modelo fragmentador, que fraciona tudo, inclusive os indivíduos, para colocá-los em determinadas categorias. Aprendem a fazer dessa forma baseada numa crença ilusória de estabilidade. Estas pessoas buscam a estabilidade em tudo que fazem, acreditando que se tiverem controle sobre todas as coisas, estarão mais seguras. Elas encontram-se ofuscadas por uma percepção limitada, fundamentada em pares de opostos a respeito da realidade que vivem, classificando e separando o bom do ruim, o jovem do velho, o bonito do feio, o semelhante do diferente. Fazem desse modo porque acreditam que assim podem ter um maior entendimento do mundo.

De tanto separar e mutilar os vários elementos que constituem suas vidas, acabam por comprometer sua própria saúde. Pois a saúde só pode ser alcançada de fato quando conseguimos a integridade em seu sentido mais amplo, isto é, quando estivermos inteiros e nada faltar. Este é o primeiro passo para conseguirmos atingir uma melhor qualidade de vida e felicidade, pela qual lutamos incansavelmente em nossa caminhada.

Este livro é resultado da minha dissertação de mestrado em Gerontologia, defendida na PUC-SP, e escrito com a intenção de mostrar que todo ser humano, independente de sua idade cronológica, possui dentro de si a certeza da transformação, a capacidade de mudar o rumo de sua história, construindo um mundo mais satisfatório e pleno para o seu viver. Por isso proponho, na primeira parte, uma reflexão fundamentada na visão sistêmica da vida, na qual todos os organismos vivos se organizam dinamicamente por movimentos rítmicos, formados por redes de células, órgãos e sistemas de órgãos que interagem uns aos outros, permitindo sua auto-organização. Pelo fato do organismo humano ser um complexo sistema dinâmico, atravessa instabilidades contínuas, possibilitando-o alcançar sempre uma nova estrutura. Em cada mudança, o organismo envelhece, especializa-se e evolui. Em suma, um organismo vivo está longe de ser um organismo estável, porque a estabilidade não condiz com a vida.

Da mesma maneira, os indivíduos em nossa sociedade são também tecidos em conjunto, formando uma grande e indissociável rede de relações. Desse modo, o sentido da complexidade nos remete diretamente ao sentido da solidariedade e, portanto, nossas atitudes para com os velhos são determinantes para a nossa própria qualidade de vida. Para reforçar esta teoria, buscarei a compreensão no modelo holográfico, no qual preconiza que em toda a parte há o todo e o todo encontra-se na parte, formando uma totalidade indivisa. Logo, não faz sentido separar qualquer elemento de nosso mundo. Por isso, não faz sentido também dividir a mente, o corpo, o espírito. Somos uma unidade e, sendo assim, se acreditamos que a velhice reserva ao corpo, a personalidade e ao comportamento social uma ameaça à sua integridade, poderemos estar nos programando para um papel que não almejamos representar.

É vital para um organismo humano a interação com o seu ambiente e com os outros organismos humanos. Somos seres gregários, interrelacionados e interdependentes. Portanto, precisamos receber e expressar, através da emoção de nosso corpo, o conhecimento necessário que nos auxilie na adaptação às diversas circunstâncias da vida. Baseado nisso, descreverei o efeito nocivo da exclusão e do isolamento que alguns velhos sofrem. Atitude cruel, velada por uma cumplicidade social silenciosa, que retira não somente suas possibilidades de experimentação, como também suas chances de viver.

Sendo assim, buscarei explicitar as crenças a respeito da velhice, apresentando os atributos negativos e estigmatizantes que formam a identidade social de velho. Identidade esta que impõe uma norma a ser cumprida, afastando-o do seu convívio social e, conseqüentemente, minimizando suas oportunidades de aquisição do conhecimento.

Para uma compreensão do quanto estes atributos negativos da velhice podem influenciar a biologia e a própria vida, discutirei, na segunda parte, a dinâmica das imagens mentais que formam não apenas os nossos conceitos de mundo, como também nos auxiliam no reconhecimento de nós mesmos. Isso porque todos os objetos externos são apreendidos por nós, a todo momento, pelas sensações corporais. Estas sensações transformam-se em imagens mentais que se associam a outras imagens já existentes, construindo uma imagem global que passa a nos representar como pessoa. Esta imagem mental – imagem corporal – é uma representação de nosso corpo que nos capacita compreender quem somos e o modo pelo qual o corpo se apresenta para nós. A partir deste entendimento, mostrarei o quanto a perda, a exclusão e o isolamento na velhice podem ocasionar lacunas e distorções nessa imagem, acarretando dificuldades na realização dos movimentos, como também a perda de referência do próprio corpo.

Descreverei também como o tato pode resgatar a sensibilidade do corpo do velho que sofre pela privação sensorial. Através do toque, recurso que permite a materialização da solidariedade, podemos trazer, para perto, o velho distante para comunicar-lhe o afeto necessário, a fim de preencher sua imagem corporal, possibilitando-lhe reencontrar a autonomia de seu corpo, tornando-o mais independente e menos isolado, segregado e lastimado. Sendo assim, a força do encontro é um aspecto essencial para a transformação corporal de todos que participam da relação, já que somos seres que vivem em sociedade, dependentes do outro para realizarmos e alcançarmos nossa própria emancipação.

Na terceira e última parte, será relatado o encontro que estabeleci com três velhas mulheres que, através de suas deficiências físicas, enfrentaram o paradoxo da vida, descobrindo novos caminhos para suas jornadas, descobrindo o valor de seus corpos, há muitos anos anestesiados para a vida, devido a um aprendizado de opressão e limitação. Através destes encontros, pude experimentar várias situações e muitos desafios, durante dois anos consecutivos de convivência, que se tornaram marcantes em meu próprio processo de envelhecimento. Por isso, foi possível acreditar no fluxo do rio, o grande mestre, que me conduziu não somente ao ensinamento, como também permitiu desvendar alguns mistérios de minha própria história