Entrevistas
PEDRO PAULO MONTEIRO
O Brasil jovem cede lugar à terceira idade
Como se dá o processo pós-carreira do idoso e como ele lida com a aposentadoria?

Em primeiro lugar é importante lembrar que a nossa cultura determina o nosso comportamento. Infelizmente, a cultura do trabalho é ainda enaltecida como fonte de nobreza humana. Existe um ditado antigo que diz: “o trabalho enobrece o homem”. Por assim dizer, a pessoa “aposentada” (a palavra se refere à norma silenciosa do aposento, ou seja, quem se aposenta deve estar no seu aposento) acredita perder a condição produtiva e, conseqüentemente, a dignidade. Várias pesquisas demonstram que, no pós-carreira, os homens sofrem mais do que as mulheres. O que fica claro é que o brasileiro ainda pensa que lugar de homem é na rua e no trabalho, enquanto o da mulher é em casa.
O importante é a mudança de pensamento, pois essas concepções foram criadas no tempo em que a expectativa de vida era muito menor. Só para se ter uma idéia, no início do século XX a expectativa de vida, em média, ao nascer não passava de 35 anos. Atualmente a expectativa de vida do brasileiro é de 68 anos. Isso mostra a importância de elaboração de projetos pós-carrreira, e conscientização ao aproveitamento saudável do tempo livre.


- Que imagem do corpo o idoso tem e qual precisa ter?
Infelizmente quem determina a imagem que devemos ter ainda é a mídia. Portanto, não sobra uma boa imagem do corpo aos mais velhos. Muitos querem esconder a alma pobre em um corpo retocado por cirurgias plásticas. Por isso, costumo dizer que a porta de saída só se abre para dentro. Quem espera algo do lado de fora sofrerá muito com o processo inexorável do envelhecimento. Só temos duas saídas, ou envelhecemos ou morremos jovens.

- Qual a diferença entre envelhecimento e velhice?
Envelhecer é processo de viver. Desde o nascimento até a morte estaremos envelhecendo. Uma criança de quatro anos é mais velha do que uma criança de dois. Por isso, somos sempre o velho de alguém , não tem jeito. A velhice, por outro lado, é categoria social, ou seja, ela é importante na organização de uma sociedade em termos burocráticos. Serve para sabermos de nossos direitos e deveres. No Brasil a velhice continua a ser determinada pela idade cronológica de 60 anos.

- Como se dá a dinâmica do envelhecimento no sentido tempo/espaço/movimento?
Na verdade existem dois tempos: o tempo cronológico que é o tempo do relógio e dos calendários, e o tempo kairós, interno, que é o tempo vivido, um tempo que pertence a cada indivíduo como ser único. O tempo é uma abstração. Outro dia descobri que tinha 39 anos ao invés de 38 como acreditava. Fui registrado no cartório em uma data, mas minha mãe me disse que nasci em outra. Será que eu perdi um ano de minha vida? Claro que não, pois se o tempo me pertence, ele também me fornece a possibilidade de construir o cenário de minha vida como eu quiser. Por isso, somos nós a delimitar o nosso espaço, somos nós a delimitar os limites. O corpo está no espaço, e é pelo corpo que nos expressamos no mundo. Expressão e movimento são sinônimos aqui, e acho a velhice um bom momento para fazermos reflexões mais profundas. Quanto mais velhos mais lentos. Isso pode ser visto como ruim, mas se somos chamados à reflexão, é preciso obediência e entrega. Na juventude não damos atenção a nós mesmos como deveríamos, na velhice o tempo nos pertence de outra maneira. O importante é não confundir, e acreditar que a juventude é melhor do que a velhice. São momentos diferentes da vida, só isso.

- Que correlação realmente existe entre doença e velhice?
Doença é um estado de impossibilidade de realização dos desejos. Portanto, nem todos os velhos são doentes. Porém, a doença é mais comum na velhice devido à vulnerabilidade biopsicossocial do indivíduo. Não devemos mais pensar na separação física, psíquica, social. Somos inteiros, e estamos no cenário cultural. Isso significa que não fazer o que se deseja é um estado de doença.

- Como o cérebro funciona a fim de perceber a velhice?
O cérebro é um órgão interessante porque ele é plástico, isto é, ele tem a capacidade de aprender e reaprender durante toda a vida. Portanto, a velhice é percebida de acordo com a perspectiva individual. Se a velhice é aprendida, necessitamos de melhores modelos em nosso país. - Por que principalmente o idoso precisa de estímulos sensoriais?
Em nossa cultura ainda existem falsos estereótipos de velhice. As pessoas acreditam que os mais velhos precisam do “aposento” para descansar a máquina fragilizada pelo tempo. Isso não é verdade. O corpo não é uma máquina, como se pensava no séc. XVII. O corpo é vivo e, portanto, nasceu para aprender. Quando deixar de aprender morrerá. Então, enquanto houver vida existirá necessidade latente de aprendizado. Só podemos aprender pelos sentidos. São através dessas portas que evoluímos no mundo.

- Necessidade do movimento do corpo para um idoso
O que é vivo tem movimento. É pelo movimento que nos relacionamos com o mundo e com os outros. Assim, estar dentro do “aposento” para descansar do que não se fez é um grande perigo. Muitas vezes sou chamado para avaliar pessoas que vivem anos dentro de quartos. Essas pessoas apresentam sempre o mesmo quadro: atrofia dos músculos, diminuição de força, “preguiça” (desmotivação), cansaço.
Esse quadro inicia pelo “Isolamento Protetor”. Freqüentemente queremos fazer tudo pelos mais velhos, não o deixando experimentar o movimento. Isso degrada o corpo rapidamente, e não o envelhecimento.
Precisamos ser corajosos para romper com as nossas margens, com os limites de segurança para alcançarmos novos aprendizados.