Entrevistas
PEDRO PAULO MONTEIRO
REVISTA DIMENSÃO
Qual sua concepção de velhice?

Velhice é uma categoria socialmente construída. Em nosso país, por exemplo, a velhice começa aos 60 anos de idade cronológica. Já em países desenvolvidos como os EUA, a velhice inicia aos 65 anos. Ou seja, a idade cronológica tem um caráter de atribuição de maioridade legal; definição de papéis ocupacionais, como a entrada no mercado de trabalho; direitos à aposentadoria, etc.


Como poderia explicar resumidamente o significado do título de seu livro "Envelhecer - Histórias, encontros, transformações"?

Quis trabalhar o conceito de envelhecimento pela perspectiva do processo de viver. Envelhecemos conforme vivemos. Sendo assim, envelhecer é um processo de transformação do humano, em seu tempo vivido. Eu não envelheço da mesma maneira que você. Envelhecer é um fato universal, todos seres vivos envelhecem, porém mantendo suas idiossincrasias. Desde a concepção até a morte estamos envelhecendo.

O subtítulo escolhido foi para mostrar que todos nós, independentes da idade cronológica, podemos mudar, ser o que ainda não fomos. A palavra trans-form-ação significa: “ação que nos leva além da forma atual”, ou seja, envelhecer é seguir em frente. Não há retorno nessa caminhada da vida. São as histórias que nos fazem ser quem somos, e os encontros são possibilidades de ir além de nós mesmos. Isto é, ninguém se liberta de si sozinho.

O livro é indicado para o público leigo? Qual o tipo de leitura que poderia ajudar a envelhecer no século XXI?

Acho o livro ENVELHECER uma leitura importante para o século XXI a todas as pessoas, porque traz uma nova visão acerca do que é a vida. Atualmente a mídia nos sobrecarrega de receitas antienvelhecimento, técnicas rejuvenescedora, etc. O que é importante saber é que não podemos parar o processo de envelhecer, a não ser morrendo. Temos muitas teorias, mas ainda não sabemos ao certo como se dá o processo de envelhecimento biológico. Se não sabemos como ocorre o processo de envelhecimento, como podemos impedi-lo?

Costumo indicar aos leigos para lerem inicialmente as três histórias de vida, expostas na última parte do livro, assim será possível verificar que envelhecer é ter esperança. Pesquisei três mulheres acima de 70 anos de idade com deficiências físicas (velhice não é sinônimo de doença), durante dois anos, e coletei histórias de transformação do corpo e, conseqüentemente, da vida.


Gostaríamos de abordar a sexualidade na velhice. Realmente mudou a postura dos idosos diante da sexualidade?


Percebo sim uma grande mudança de comportamento. Porém, nem todas as pessoas mais velhas têm uma vida sexual ativa. Não porque não querem, mas porque não tem oportunidade de encontrar um parceiro. Isso ocorre principalmente com as mulheres que possuem expectativa média de vida de 8 anos a mais do que os homens. É importante assinalar que as pessoas mais velhas não transcenderam ao sexo, como muitos pensam. Elas possuem, muitas vezes, maior libido do que os mais novos, pois nossa relação tátil, em decorrência de nossa cultura, diminui com o avançar dos anos.


Qual a contribuição dos estimulantes sexuais para uma velhice mais ativa?

Os estimulantes sexuais devem ser vistos com cautela. Hoje, verifico pessoas bem novas usando Viagra, para tentar incrementar a relação sexual. Acredito que as relações sexuais, independentemente de idade cronológica, devem ser pensadas com responsabilidade, e todas as decisões devem ser tomadas pelo casal. Muitas vezes o sexo é visto como válvula de escape de tensão, e menos como autoconhecimento corporal e doação mútua.


Como se define o velho?

Velho é aquele que tem mais idade cronológica. Costumo dizer que somos sempre o velho de alguém, como também somos sempre o jovem de alguém. O tempo nos pertence. Portanto ser o velho, como ser o jovem, é somente um parâmetro comparativo etário. Por exemplo, quando uma mulher de 30 anos vai à feira, o menino que pede para carregar a bolsa de compras, comumente chama-a de “tia”. O menino que a denominou assim, com certeza, está identificando-a (de modo não consciente) como a velha dele.


Desde quando começamos a nos preparar para a velhice?

Desde já.

Somos história viva. Nosso tempo vivido não pode ser fragmentado como o é o tempo do relógio. Somos todos os tempos, então nada melhor do que começar hoje, agora, a ser melhor com nós mesmos e com o mundo. Porque somos produtos e produtores desse mundo.