Entrevistas
PEDRO PAULO MONTEIRO
ENTREVISTA EDITORA AUTÊNTICA E GUTENBERG
Entrevista com o escritor Pedro Paulo Monteiro, cedida à Andréia Vitório,

Assessora de Imprensa e Comunicação Editoras Autêntica e Gutenberg.

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Em seu livro “A mente e o significado da vida” você diz que somos o próprio mistério. O que isso quer dizer?


Durante muito tempo acreditei na ciência como única e absoluta. Isso porque minha formação acadêmica sempre fora fundamentada nela. Quando iniciei meu trabalho profissional como fisioterapeuta percebi o real sentido de ser humano. Tentava ao máximo descobrir novas técnicas terapêuticas, e não conseguia respostas para os meus questionamentos. As pessoas com deficiências físicas, classificadas como “irreversíveis” pelo arcabouço teórico científico, melhoravam significativamente. Lembro-me de uma mulher, acometida pela artrite reumatóide, que há treze anos não se levantava da cama, havia desistido de viver. O corpo havia sido destruído, um bloco humano sem contornos, a forma repleta de deformidades articulares. Ao chegar e vê-la em prantos, consumida pela dor, tentei “animá-la”. Ela disse ser a morte a melhor escolha. No fundo, eu também acreditava nisso. Subitamente, percebi que eu não queria perdê-la, sentia uma profunda compaixão. Como não queria desistir de mim mesmo – naquela época já experimentava no processo terapêutico o corpo do outro como o meu próprio corpo –, perguntei se ela me daria permissão para eu tentar resgatá-la daquele mundo sombrio. Quando terminei minhas palavras, ela me olhou e abriu os braços, ficamos unidos algum tempo, e juntos choramos baixinho. Algum tempo depois, ela retornou a andar.

Porém, como ela poderia andar se não tinha ossos fortes suficientes para suportarem seu peso? Esse é o mistério o qual me refiro. Quando digo que somos o próprio mistério é pelo fato de sermos muito mais que podemos conhecer. Não somos seres de explicação fácil, como muitas vezes a ciência determina. Tudo é possível porque temos uma mente que nos permite viver o milagre.

Em seus três livros você trata do autoconhecimento, mesmo que em abordagens diferentes. Por que ele é necessário para o ser humano?


O autoconhecimento é o nosso propósito. Por que passaríamos por tantas privações, medos, tristezas, incertezas, para nada? Não posso acreditar que a vida seja um gasto de energia apenas. Somos seres misteriosos e portanto devemos construir nossa própria história. Sendo assim, conhecer-se é sabedoria. Não podemos esquecer de nossa essência. Costumo me despedir de pessoas que atendo da seguinte forma: “Não se perca de vista”. Quando nos perdemos de vista, pecamos. A palavra “pecar” quer dizer errar o alvo. Quando perdemos a consciência de nossa ação estamos sujeitos ao pecado.

As pessoas acreditam que pensar em si mesmas é egoísmo. Pensar em si é saber caminhar com as próprias pernas. Quando esquecemos de nós a vida nos mostra outro caminho, o caminho da doença.

Também em suas publicações, as palavras ‘mudança’ e ‘transformação’ são presenças constantes, o que pode sugerir que somos seres permanentemente inacabados. Por isso o autoconhecimento é considerado um desafio?


Nunca seremos completos, porque ser completo seria sim um ato egoístico. Por que eu precisaria de você se eu me basto? Quando sabemos que somos inacabados buscamos outros modos de ser. Na busca nos transformamos. Nunca somos os mesmos. No livro Quem somos nós? O enigma do corpo eu digo que acordamos com um corpo e iremos dormir com outro. O corpo é uma vestimenta diferente para situações diferentes. Quando você coloca uma roupa para ir ao trabalho está também vestindo um novo corpo.

Infelizmente, muitos acreditam na estabilidade da vida; busca segurança, casamento sólido, situação financeira estável. Nada disso é possível porque somos seres em transformação. A palavra requer maior entendimento; trans-form-ação significa uma ação que nos leva além de nossa forma atual. Por isso, no livro Envelhecer digo que envelhecer é um processo de transformação do humano como ser único em seu tempo vivido. Isso quer dizer que independente da idade cronológica estamos envelhecendo a todo o momento. Caso contrário, perderíamos a esperança na vida. Viver com esperança é saber que amanhã será um outro dia, e estarei mais velho do que hoje e, portanto, mais apto do que ontem para solucionar problemas.

Ontem ao atender uma senhora de 90 anos, ela me disse: “eu te esperei por 30 anos”. Se foi muito tempo não posso ter certeza, o que é certo é que o tempo flui e nele estão todas as possibilidades latentes.

É na passagem do tempo que nós mudamos, somos muitos em um único ser. Por isso, o autoconhecimento é um desafio constante. Dizer que eu sou do jeito que sou, e não mudarei é uma bobagem.

Até que ponto uma sociedade que cultua o belo e o jovem pode comprometer nossa busca por nós mesmos, desviando-nos de um significado para a vida que realmente possa nos fazer bem?


Ontem andava na rua quando me deparei com uma pessoa que há anos não encontrava. Era uma pessoa que sempre cultuou o corpo, um homem bonito, modelo para muitos. Ele estava magro, pálido, e muito mal vestido, devia estar doente. Então pensei, se era mesmo esse o modelo de beleza. O que é ser belo? Beleza é aquilo que tem expressão harmoniosa. A foto de um modelo numa revista é uma foto bonita, e não uma mulher bonita. Uma pessoa que se expressa com naturalidade é uma pessoa bela. Se pensarmos na velhice como um “tempo parado”, acreditaremos que todas as pessoas mais velhas são feias. Mas quando pensamos no corpo como expressão da história de vida, vemos de outro modo. Sabemos o quão difícil está sendo expressar nossa verdade. A mídia é enfática em determinar regras, fortalecendo sua hegemonia, corroborando discriminações.

Se você ligar a televisão, não será difícil encontrar uma pessoa que quer aparecer para ser alguém. Ninguém precisa aparecer para ser alguém, e sim ser alguém para aparecer. Desse modo, podemos adquirir o significado e lugar no mundo. Ser sujeito repleto de significado para si e para os outros é ser alguém entre a multidão.

Nascemos chorando, enquanto muitos riem de felicidade. Ao morrermos temos de ir com um sorriso estampado, enquanto muitos choram. Aí sim foi possível cumprir o nosso legado.

Qual a contribuição de seus livros para o leitor, imerso nessa sociedade?


Quando escrevo quero passar uma mensagem. Minha contribuição talvez seja facilitar a descoberta de novas formas de ser para que as pessoas vejam a vida com outros olhares. Percebo que elas acreditam em muitas coisas sem fundamentos. Por essa razão gosto de mostrar em meus livros histórias de vida de sucesso, pessoas com limitações físicas, psíquicas, sociais, que conseguiram adquirir significado, porque mudaram o olhar. No meu último livro, A mente e o significado da vida escrevo que tudo está em nós, em nossa mente. O que chamamos de real nada mais é do que reflexo de nós mesmos.

Existe caminho para o autoconhecimento?


O caminho é o aqui e agora, viver e experimentar ser sempre de modo diferente. Isto é, não devemos tentar nivelar aquilo que nos contrasta, e sim aprender que tudo o que vemos, sentimos, experimentamos, somos nós mesmos na ação. Viver é aprender. O dia em que deixarmos de aprender, morremos. Por assim dizer, não temos idade para aprender ou deixar de aprender. Enquanto a vida pulsar é preciso decifrar o código do aprendizado existencial.