Entrevistas
PEDRO PAULO MONTEIRO
Entrevista para o site www.andipi.com.br

Por que e para quê vivemos?

O propósito da vida continua a ser um grande enigma. Alguns autores renomados tentaram solucionar a questão, mas só criaram mais suposições. Parece simples viver, mas a vida é um fenômeno sumamente complexo. De uma maneira resumida poderia dizer que viver é um processo contínuo de autoconhecimento. Trabalhando com pessoas mais velhas, tenho o privilégio de verificar que ninguém deixa a vida sem antes aprender com alguém e fazer contribuições com alguma coisa. Compreendo a vida humana como uma arena de aprendizado. Nela continuamente desenvolvemos maneiras de nos estabelecermos como seres humanos, e por meio de nossas relações construirmos uma história.

Por que seria mais fácil compreender a transformação quando lembramos de nossa infância do que na vida adulta? Qual a diferença?


Porque é preciso crescer rápido. Somos os únicos animais totalmente dependentes quando muito pequenos. Por exemplo, um filhote eqüino já nasce se locomovendo, mesmo sendo desajeitado. Nós, em contrapartida, somos dependentes dos cuidados de pessoas mais velhas, senão morremos. Após a conquista da autonomia física, estamos aptos a sair pelo mundo experimentando-o. É importante deixar claro que mesmo independentes, somos e seremos sempre criaturas dependentes de alguém ou de alguma coisa. Não sobrevivemos sozinhos.

Qual é a crença existente sobre o processo de envelhecimento? Como chegamos a essa visão negativa do envelhecer?

Em nossa história sempre tivemos uma visão negativa com relação ao envelhecimento. Isso porque o envelhecer é verbo, ação que nos levará a um lugar certo: a morte. Ninguém duvida disso conscientemente, mas inconscientemente ainda nutrimos a expectativa de uma possibilidade de invencibilidade. É Interessante saber que ao nascer já estamos morrendo, e indubitavelmente chegará um dia que acabaremos de morrer. A biologia contemporânea explica isso muito bem. Não há dúvida de que vivemos um paradoxo: o oxigênio que respiramos provoca efeitos deletérios em nossas células – radicais livres – provocando nelas alterações que podem comprometer o nosso sistema como um todo. Entretanto, ninguém pode viver sem respirar. Ou seja, respiramos e morremos. Como já dizia o sábio Heráclito de Éfeso, VII séc.a.C. “vive-se da morte, morre-se da vida”.

Por que tememos envelhecer? Envelhecer é processo de viver ou fim da jornada? Há uma receita para se envelhecer bem? Diversamente do senso comum, o senhor considera que envelhecer é um processo de evolução. Por que?

Eu considero envelhecer um processo de viver, porque vivemos e envelhecemos. São palavras sinônimas. As pessoas, de um modo geral, consideraram o envelhecimento como circunscrito aos mais velhos, ou melhor, às pessoas acima de 60 anos de idade cronológica. Mas, na verdade, não temos outro caminho senão envelhecer ou morrer.

Envelhecer ou morrer: qual é a questão principal? 

Eu diria que é uma questão de preferência. Você prefere envelhecer ou morrer jovem? James Dean, por exemplo, morreu jovem e será eternamente jovem (Young forever – título da sua biografia). Porém, se quiser continuar a vivenciar tudo o que a vida tem de melhor ou de pior, é importante que saiba que terá de envelhecer para experimentar.

A idade que temos agora é a melhor idade ou teremos uma idade melhor no futuro?

Sua pergunta é interessante, porque me parece denotar uma certa crítica à classificação na qual algumas instituições (que acreditam estar “politicamente corretas”) dão às pessoas acima de 60 anos de idade. É importante explicar que terceira idade, melhor idade, idade da maturidade, etc. são eufemismos para uma palavra muito simples: Velhice. A velhice é uma categoria social, como a infância. Cada categoria possui seus direitos sociais. A velhice no Brasil começa aos sessenta anos de idade cronológica. Ninguém precisa ser velho e doente para ter seus direitos respeitados. Por exemplo, muitas pessoas acham que estar na fila dos idosos pode diminuí-las. O que essas pessoas precisam entender é que elas têm um direito garantido, e sendo assim precisam assumir isso como prática da cidadania. Não importa se elas não se sentem “velhas” (pela crença social de que ser velho é ser doente), é um absurdo acreditar que se é menos porque está mais velho ou menos velho do que os outros. Se formos pensar bem, sempre seremos o velho daqueles que tem menos idade cronológica que nós. Desculpe-me, mas acho que não respondi sua pergunta. A melhor idade é aquela na qual acontecem coisas que acreditamos serem boas para a gente.

Que mensagem equivocada é apregoada pelos meios de comunicação sobre a velhice? Por que o tema é tratado de "modo impensado, descabido, incompetente"? O que é preciso fazer para se mudar essa visão para uma perspectiva mais positiva? Como é possível mudar mentalidades e cultura?

A grande mensagem equivocada é a promessa descabida do Antienvelhecimento. Ninguém volta no tempo. Você conhece alguém que tenha desistido de estar no tempo presente para retornar ao passado? Só os dementes, e isso é doença. Estar bem com 70, 80, 90 anos de idade é possível. Eu atendo uma mulher de 75 anos de idade que outro dia ela me confessou; “eu só comecei a viver com setenta anos. Antes eu sobrevivia”. Essa mesma mulher conseguiu compreender que o problema não tinha a ver com a idade, e sim com a falta de percepção dela com relação ao seu processo de viver. É muito fácil culpar a idade. Costumo dizer que temos três boas desculpas para impedir a nossa transformação, e ser feliz: Primeiro, pensar que não temos mais idade para realizar aquilo que queríamos realizar; segundo, pensar que não temos tempo; terceiro, que não temos dinheiro.

Só mudamos mentalidades com uma educação consciente.

Há algumas referências que fazem os velhos serem vistos como um novo nicho de mercado a ser explorado por empresas e por produtos. O que há de certo e errado nessa visão?

Precisamos entender que a mídia e o mercado estão intrinsecamente ligados. Escrevo no segundo volume da coleção Envelhecer e Viver sobre o mercado da beleza. O mercado da beleza tem o papel de incutir a idéia de que somos feios, porque assim há possibilidade de vender produtos para o embelezamento. Se você tiver bem com o seu corpo, por que razão se preocupar em comprar um produto para estar bem? Se você se sente bem, tudo bem. Então, é preciso criar uma nova maneira, a idéia de “Prevenção”. O que a mídia preconiza sobre prevenção não é verdade. Todos nós podemos viver bem com as nossas rugas. Elas não são cânceres a nos liquidar. Mas, se a vizinha disse que viu na televisão que a ruga é algo a ser escondida, então podemos pensar que se não seguirmos o conselho dela poderemos sofrer a rejeição. Para evitar, vamos a busca do creme que previne rugas.

Quem são os aproveitadores do "novo filão"?

É mais gente do que podemos imaginar. Escuto com freqüência de meus alunos: “Quero trabalhar com idosos porque será lucro certo”. Tenho de dizer que, infelizmente, são alunos da graduação e pós-graduação na área de saúde. A saúde não é a meta, e sim a doença. Se não fui claro, é importante ser mais cristalino: a maioria das faculdades prepara o aluno alimentando-o a ver a doença, e colocar o velho refém dos cuidados do profissional. Portanto, a idéia equivocada de que velhice e doença são sinônimos.

Há beleza no corpo de uma pessoa com mais de 60 anos?

Eu não sei o que você acha da beleza de Sophia Loren. Ela tem 72 anos de idade cronológica e foi capa do calendário da Pirelli em 2007. Eu a considero uma linda mulher, com todas as rugas que ela mesma se recusou eliminar. Beleza é contextual. Se beleza fosse algo simples poderíamos ficar satisfeitos em folhear revistas de moda. É preciso sentir a pessoa para saber se ela é bonita. Beleza tem mais sentido quando transcende os sentidos para alcançar o inefável.

Na velhice é possível ter saúde?

Somos saudáveis quando nada falta. A palavra “saúde” significa integralidade. Conheço alguns velhos que possuem tudo, portanto são saudáveis.

Qual é o lugar do idoso numa sociedade dominada pela rapidez e pela urgência no fazer?

Eu penso que são os próprios velhos que terão de mostrar aos menos velhos que a velocidade faz parte de um momento da vida. Na velhice é preciso exercitar o ser ao invés de fazer. Como nos ensina o livro Eclesiastes: “Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo o propósito debaixo do céu”.


O mérito de ser livre é tema de um dos volumes da coleção. O que os idosos podem aprender e ensinar à sociedade sobre essa opção de decidir como preencher o seu destino?

Assumindo ser quem eles realmente são. Ser velho ou ser novo é somente uma perspectiva etária, e também um merecer. Somente quem conseguiu viver mais tempo pode saber o que todas as fases da vida podem significar. Cada um escreve sua própria história como quer. A história é escrita no aqui e agora, portanto cada um escreve o destino no único tempo possível: o presente.

Será que o país está preparado para enfrentar o envelhecimento de sua população? Como se prepara para isso? Faltam conhecimentos?

Como disse antes, somos pobres em educação e conhecimento. Enquanto estivermos preocupados somente com a tecnologia nos afastaremos do humano. A preparação está em refazer o caminho do aprendizado. É importante incluir a disciplina filosofia no currículo dos cursos da área de saúde. Refletir sobre o humano é urgente. Como um profissional pode tratar um humano se ele não sabe o que é um ser humano? É preciso aproximar o sentido de humanidade. As pessoas estão perdidas em relação a isso.

De que forma a publicidade pode colaborar na mudança dessa visão? Como é possível municiar a sociedade de outras verdades, construindo novas lentes para ver o que os nossos olhos não conseguiam enxergar?

Levar em consideração a ética como princípio norteador. Ao sermos éticos, podemos ser mais humanos. É preciso ter consciência de que somos responsáveis não só pelo que fazemos, mas também pelo que poderíamos ter feito. Quando não levamos em consideração o respeito pelo outro, deixamos de ser éticos, e isso nos torna seres prejudiciais. Quando a publicidade conhecer mais sobre o envelhecimento poderá criar novos modelos de propaganda, fundada no respeito à dignidade da pessoa mais velha. Sem dúvida, eles alcançarão melhores resultados. Porém, compete aos profissionais da publicidade serem mais criativos e corajosos para romperem com o modelo de velhice decrépita e indigna.

Com a experiência acumulada de quem trabalha há mais de vinte anos com idosos, o que o senhor diria para uma pessoa que chegou aos 60 anos?

Agora você está pronto para alçar vôo, olhe para cima e busque a sua verdade.