Entrevistas
PEDRO PAULO MONTEIRO
REVISTA VIDA SIMPLES
1- Vivemos rodeados de padrões sociais e culturais que estabelecem parâmetros de beleza. Ao começar a envelhecer, a maioria das pessoas não corresponde mais a esses padrões e tenta com uma série de medidas (cirurgias plásticas, tratamentos, musculação, etc) compensar os danos impostos pelo tempo. Mas essa corrida contra o envelhecimento gera insegurança, angústia e uma pressão psicológica cada vez maior. Como encontrar o equilíbrio entre esses padrões externos e a aceitação interna? Isso é possível?

R: Sim, ao perceber a vida como frágil e passageira. Eu, por exemplo, não gostaria de romper com a minha trajetória existencial para ter um corpo de vitrine. As perspectivas mudam quando compreendemos o corpo como um corpo vivido repleto de possibilidades de experimentação. O que é viver senão experimentar a totalidade da vida? Se assim vivermos, teremos a capacidade de lograr a beleza, mesmo porque beleza é plenitude. Viver plenamente o que se tem para viver otimiza nossas potencialidades, nos torna mais honestos. As pessoas fracionam a vida quando rejeitam a si mesmas, negam a própria história quando valorizam o modelo estético sem questioná-lo.


2-O que é envelhecer com sabedoria? No caso, qual seria a extrema sabedoria?

R: Envelhecer com sabedoria só é possível pela reflexão. Porém, a reflexão (dobrar sobre si mesmo) é uma postura de humildade. Sempre tenho comigo a frase de T.H.Huxley: "Curve-se diante dos fatos como uma criança e prepare-se para sacrificar todas as noções preconcebidas, siga humilde por toda parte e por todos os abismos a que a natureza o levar, ou você não aprenderá nada.". A pessoa que não reflete sobre a própria vida não adquirirá experiências com qualidade. Ser mais velho com experiências sem qualidade é estar à deriva de si mesmo.

A extrema sabedoria é quando conseguimos exercitar o "deixar ir", compreender que a vida é muito mais do que saber e fazer. Sem isso, a vida se torna velas acesas ao vento.

3-O que os limites físicos, a fraqueza ou a lentidão ensinam à alma?


Como terapeuta do corpo aprendi uma importante lição: o corpo não mente jamais. Viver no próprio tempo é viver consigo mesmo. Esse é o grande desafio da velhice com limitações físicas: saber que os movimentos do corpo diminuem para que você não fuja de você mesmo. Como bem escreve T.S.Eliot: "Não devemos parar de explorar. E o fim de toda nossa exploração será chegar ao ponto de partida e ver o lugar pela primeira vez". É importante saber o que fazemos com os nossos cacos Independentemente de qualquer coisa nossa essência sempre saberá o ritmo de nossa canção interna.

4-Sempre se fala das desvantagens de envelhecer. Quais seriam as vantagens.

A vida é um enigma, é a alternativa num mar de opções. Somos fadados às escolhas. Temos várias direções em uma única jornada. Quanto mais pudermos viver, mais chances nós teremos de optar por melhores escolhas. Acredito que a revisão da vida é uma oportunidade de reescrever a nossa história. É muito mais fácil olhar para trás e ver as pegadas do que almejar o futuro, ainda por vir. Walt Whitman escreve: "A pé e despreocupado, entrego-me à estrada aberta, saudável, livre, o mundo diante de mim, o longo caminho dourado à minha frente levando-me aonde quer que eu escolha". A grande vantagem do processo de envelhecer é aprender a confiar no fluxo do rio da vida, e saber separar o mais importante do menos importante.


5-Quando se começa a envelhecer?

A vida é dinâmica e, portanto, um processo contínuo de mudança. Por isso envelhecemos. Envelhecer é viver, viver é envelhecer. São faces da mesma moeda. Não podemos pensar na vida sem pensar no envelhecimento.

Muitas pessoas costumam achar que as palavras envelhecimento e velhice querem dizer a mesma coisa. Elas possuem significados diferentes. Se envelhecer é um processo de viver, todos nós, independentes da idade cronológica, estamos envelhecendo. A velhice, por outro lado, é uma categoria social, circunscrita a pessoas acima de 60 anos, em nosso país. Posso, no entanto, afirmar que todos nós estamos envelhecendo, porém nem todos chegam à velhice. Se isso é bom ou ruim, é somente um ponto de vista. Quem considera o envelhecimento ruim acredita numa vida sem possibilidades. Acreditar é também optar. Podemos optar em achar a vida feia ou bela.


6-Conte algumas das lições que aprendeu com alguém mais velho e que marcaram sua vida?

No meu segundo livro Quem somos nós? O enigma do corpo, escrevo a história de Cristiana, uma mulher de 94 anos. Ela contribuiu e muito a ser quem sou, compreender a transformação como oportunidade de ir além de mim mesmo.

Cristiana era uma mulher sensível e perspicaz. Sempre teve a intenção de não deixar nada para trás. Queria passar a limpo o passado e a relação com o mundo. Lembro-me que ela tinha vários diários em que escrevia sem parar. Eram quatro grandes malas velhas repletas deles, de tamanhos diferentes e capas de diversas cores. Eu nunca havia visto aquilo e, sendo fascinado por histórias de vida, não me contive e perguntei se ela poderia deixar para mim, como herança. Seria um grande orgulho ter acesso ao mundo fascinante dela. Minha atitude audaciosa não ficou sem resposta. Ela disse que uma história pertence apenas a quem a viveu, portanto, queimaria seu passado antes de morrer. Não queria que alguém lesse seus pensamentos. Contudo, uma vez que eu estivera presente em uma pequena etapa da sua vida, me convidou a ajudá-la a queimar os diários.


Cristiana almejava, por meio do fogo, a destruição simbólica da culpa e a purificação e regeneração de suas falhas. Tinha de fazer a passagem ainda em vida porque acreditava que seria mais uma falta sair de cena e deixar seu passado maculado.


O dia chegou e carreguei as quatro malas pesadas para o fundo da casa. Havia um espaço inutilizado, porque Cristiana já não tinha muitas coisas que o ocupassem. Ela já vinha doando seus objetos há bastante tempo, como uma maneira de desprendimento do mundo material.

Após fazer toda a arrumação das malas para a grande fogueira, sentei-a em uma cadeira. Era uma daquelas noites tranqüilas, secas e quentes. Acendi o fósforo e me aproximei das malas banhada com álcool. Imediatamente, o fogo tomou conta de tudo, formando um verdadeiro escudo aureolar azul, amarelo e laranja. Foi um processo de transmutação incrível. Muito mais do que queimar papel, Cristiana deixava ir embora sua história pessoal. Não a negava, mas permitia que sua identidade pessoal se convertesse em chamas.

Era difícil perceber o que isso significava para ela, principalmente porque eu ainda não havia envelhecido o bastante, e não compreendia o que era o desprendimento. De qualquer modo, sentia-me privilegiado porque tinha o direito de estar ali ao lado dela, participando do ritual como os nativos norte-americanos fazem quando se torna necessário tomar decisões que afetem toda a tribo. Nessa tradição, as fogueiras lembram que nosso destino é determinado por aqueles em quem confiamos, os que já caminharam pela Terra mais do que nós e acumularam mais conhecimento.


Em certo momento, comecei a perceber que ela estava simbolicamente fazendo sua passagem. Começou a chorar, sem nenhum movimento expressivo de dor. Estava calma e aquecida, a postura mais altiva e leve, como se deixasse para trás todo o peso do passado. O fogo parecia lhe dar liberdade, trazendo promessas de renovação e, conseqüentemente, a criação de um novo horizonte.


O caminho em direção a nós mesmos é sempre árduo e exige sacrifícios, porque precisamos deixar para trás tudo o que foi construído durante tanto tempo. Aprendi naquele momento o que é o ritual de passagem do âmbito do profano para o sagrado, do ilusório para a eternidade, da morte para a vida.

7-Como despertar a chama de alguém mais velho, como fazê-lo voltar à vida?


É preciso dar lugar e significado aos mais velhos. Para que o passado não seja um tempo perdido, é preciso dar presença a ele, transformá-lo em história viva, repleto de significados. Eu presencio isso há 20 anos. Quando devolvemos o lugar e o significado aos mais velhos eles se fortalecem, e se revoltam (movimento de retorno a si mesmo). É preciso a revolta para saber que ainda existe um caminho. Enquanto existir vida há propósito.