Entrevistas
PEDRO PAULO MONTEIRO
CURITIBA
1)Em um dos seus artigos você fala, “a velhice não é um problema e sim o modo como é tratada”. Que tratamento é esse?

A velhice é uma categoria social e não um problema. Porém, em nossa sociedade a identidade social do velho vem carregada de atributos negativos: os velhos são feios, incapazes, lentos, possuem memória fraca, doentes, e assim por diante. Os velhos que não se enquadram nesses atributos são considerados exceção. Os conceitos são criados para nos situar no tempo e no espaço, porém devemos ter cuidado nas generalizações.

Atualmente a biologia do envelhecimento demonstra que a maioria das alterações que ocorrem durante o envelhecimento está associada ao desuso. Sendo assim, a doença não é exclusividade dos mais velhos, ela é um problema para quem não consegue ter uma vida com qualidade.

2- Uma pesquisa feita pela Dove, em 10 países, constata que quase toda mulher quer mudar algo em corpo, mas comparando as idades, as entrevistadas com mais de 45 anos têm esse desejo, mas bem menos do que as de faixa etária entre 15-17 anos. As mulheres de meia idade estão felizes com seus corpos ou apenas conformadas?

Atravessamos a cultura do corpo eficiente, tanto em termos de capacidade para o trabalho como para a beleza de vitrine. Não posso entender o resultado dessa pesquisa, pois sabemos que os adolescentes são os mais preocupados com o corpo, porque eles estão na fase indeterminada da forma. Isto é, nessa fase da vida o corpo sofre modificações radicais, levando a incertezas do que é ser belo.

Com o abarrotamento de informações, principalmente da mídia, do que é ter um corpo belo creio ser bastante difícil para as mulheres estarem felizes com o próprio corpo. A grande maioria delas tem um ideal de corpo e não um corpo ideal.

3- Com a perda da beleza física (o ideal de mulher), o que motiva uma senhora ir a bailes e voltar à fase de namoricos?

Ninguém precisa perder a beleza por estar mais velho, pois como dizia o oráculo de Delfos: “o mais justo é o mais belo”. Beleza é o que preenche a intenção da natureza. Se as senhoras vão aos bailes e voltam à fase de “namoricos” acredito ser para expressarem o desejo que ainda sentem. Não existe idade para parar. Quem deseja continua na trilha da vida, quando deixam de desejar morrem. Isso serve para qualquer tipo de desejo, seja ele o mais simples como fazer um bordado, ou contemplar a beleza de uma flor.

4- Para você, o que é novo é mais gostoso?

A pergunta é uma provocação, é claro. Esse foi o slogan de uma propaganda de cerveja veiculada na televisão algum tempo. O anúncio mostrava dois rapazes que se deparavam com várias senhoras usando bengalas, andadores e cadeiras de rodas, que queriam “atacá-los”, dizendo: “Vem gatinho, vem! Vem pra mim”. Os rapazes conseguem escapar quando entram no freezer de um bar, aparecendo numa praia repleta de garotas de biquíni que se divertiam e bebiam cerveja. A propaganda era não somente de mau gosto como preconceituosa. Escrevi um artigo sobre isso e enviei ao Observatório da Imprensa e ao CONAR (órgão de regulamentação de propaganda), e em menos de uma semana o ministério público retirou a propaganda do ar. É preciso estar de olho. Não devemos aceitar brincadeiras que reforçam preconceitos. Somos produtos e produtores de uma sociedade.

5- A mídia é a grande vilã, impõe ideal, ou mesmo antes delas as mulheres tinham esses anseios pela beleza?

Não diria que a mídia é a grande vilã, mas ela contribui para o modelo de beleza intransigente. Sempre tivemos modelos de beleza, mas até hoje não sabemos o que é ser belo. Beleza tem diversos conceitos. Sem dúvida, prefiro me achar belo a feio, para estar na companhia do outro. O nosso maior medo inconsciente é não ser aceito. Atualmente existem teorias biológicas para isso; somos seres gregários, porquanto vivemos em sociedade. Viver isolado é definhar e morrer. Queremos ser amados de uma forma ou de outra. A mídia nos inflige um modelo de comportamento que nos faz correr atrás para não ficarmos sozinhos.

6- Vinicius de Moraes, falou a seguinte frase: “As feias que me desculpem, mas beleza é essencial”. É essencial na terceira idade? O que é essencial nesta fase da vida?

Também concordo que beleza é essencial. Contudo, penso o belo como força de caráter. Vinicius de Moraes também disse: “uísque é o melhor amigo do homem. É o cachorro engarrafado”. Será o uísque tão amigo assim? É preciso contextualizar para entendermos algo.

Atendo uma senhora de 98 anos, cuja história relato em meu livro ENVELHECER: HISTÓRIAS, ENCONTROS E TRANSFORMAÇÕES. Ela é uma pessoa linda fisicamente. Sempre bem vestida, com postura simétrica (proporção sempre foi considerada pelos gregos como um dos atributos da beleza), e gestos sutis. Ela é uma pessoa que morrerá bela.

7- Mulheres com mais de 50 anos que posam nuas para calendários ou em propagandas são satisfeitas, ou é só uma vontade de se mais bonita?

Satisfação e beleza nem sempre caminham juntos. Achei interessante ter Sophia Loren, 71 anos, na tão esperada edição de 2007 do Calendário Pirelli. O tema da edição, "Uma cama e cinco histórias", teve o objetivo de revelar personalidades fortes sobre o ambiente nu. Quando era criança me lembro de apreciar as belas mulheres dos pôsteres da Pirelli pendurados nas paredes das borracharias. Nunca pensei em ver uma velha mulher como modelo, até mesmo porque a velha sempre fora a minha mãe, tia ou avó, nunca objeto de desejo. Hoje, não me surpreendo em vê-la na primeira página do site da Pirelli. Contudo, aguardo mudanças sem expectativas. Quero exercitar a paciência para constatar que o velho pode redescobrir o seu espaço perdido. Se o calendário da Pirelli desafia a moda, cria tendências e modifica o convencional, espero ver o novo surgir num corpo velho. Hoje foi Sophia Loren, amanhã poderá ser a velha Angelina Jolie. Enfim, todos terão espaços criativos para reinventar a vida.