Entrevistas
PEDRO PAULO MONTEIRO
ESTOU PERDENDO A MEMÓRIA!
1 – Fale um pouco de sua especialização e experiência com a Terceira Idade.


Falar sobre minha especialização e experiência profissional é fazer um passeio nas trilhas de minha memória. Cada história possui sua memória, contendo cores e sabores, formas e direções, rastros e compassos. Isto é memória: aquilo que está em nós, aquilo que nos forma e nos situa na vida, no tempo e no espaço.
Gosto de falar de minha história porque assim posso dar presença ao tempo passado não deixando que ele se perca.
Iniciei minha trajetória profissional como fisioterapeuta atendendo em domicílio pessoas acima de 60 anos, que possuíam deficiências físicas com distúrbios de movimento.
Lembro-me de aprender na faculdade que o corpo era igual a uma “máquina” que se desgasta com o tempo, e que depois de uma certa idade, este corpo vai ficando frágil e vulnerável. Assim, pensava que o corpo de uma pessoa idosa era um corpo debilitado, ou seja, doente. Um corpo que não tinha mais chances de mudar, ou mesmo de aprender novos caminhos para sua independência. Ao mesmo tempo em que tinha estes conceitos aprendidos presenciava grandes mudanças durante as sessões terapêuticas.
Fui percebendo que havia uma plasticidade neural ainda muito dinâmica naquelas pessoas acima de 60 anos e mais. Plasticidade Neural é o fenômeno pelo qual a estrutura e a função cerebral é modificada pela experiência. Por isso, resolvi fazer minha especialização em Neurologia. Queria compreender os segredos da organização cerebral. Depois disso, ainda não satisfeito, entrei para o Mestrado em Gerontologia (ciência que estuda os aspectos biopsicossociais do envelhecimento) da PUC de São Paulo para poder pesquisar melhor sobre a Representação Mental dos idosos.
Assim, pesquisei durante dois anos, convivendo duas a três vezes por semana, três mulheres acima de 70 anos. Todas tinham dificuldades em andar, com muito desequilíbrio postural. Porém, o aspecto que mais me chamava atenção não eram os distúrbios dos movimentos, mas sim a privação sensorial – diminuição dos estímulos sensoriais, principalmente o tato.
A privação sensorial era em decorrência ao isolamento social e familiar em que estas mulheres se encontravam. Viviam num pequeno mundo de quatro paredes: o quarto. Ali não tinham com quem se relacionar, como também experimentar a vida. Como podemos experimentar a vida sozinhos, isolados, sem objetivos? Deste modo não vivemos, sofremos a angústia de nada acontecer, esperando a morte como forma de transformação.
Nestes dois anos de convivência pude verificar que a transformação do corpo e da alma reside no encontro, na ressignificação da história de vida a partir da otimização da memória. Ou seja, somos o que somos porque temos uma memória e não queremos perder nossa história. Por isso, ela precisa ser contada e respeitada pelo outro que a ouve. Este é fundamentalmente o meu trabalho como Gerontólogo: Ressignificar histórias de vida, facilitando a transformação do corpo, criando possibilidades.
Fiquei tão entusiasmado com esta pesquisa que resolvi compartilhar com o público em geral, escrevendo o livro: “Envelhecer: histórias, encontros e transformações” pela Editora Autêntica. Livro indicado ao Prêmio Jabuti de 2002.
O livro narra a história de vida de três velhas mulheres, que redescobriram o valor de seus corpos e de suas vidas. Muitas vezes acreditamos que depois de uma certa idade não modificamos mais, vamos esquecendo de viver. Isso não é verdade porque tudo modifica. A lei da vida é mudar. Não existe estabilidade no viver, portanto, viver é envelhecer. A cada momento estamos envelhecendo. Precisamos mudar a idéia de que somente os velhos envelhecem. Desde a concepção até a morte, estamos envelhecendo. Da mesma maneira que somos sempre o velho de alguém, porque sempre existirá uma pessoa menos velha que nós.



2 – Quais os fatores que mais influenciam na perda da memória?

Excetuando a degeneração patológica do cérebro, como por exemplo a Doença de Alzheimer, tenho observado freqüentemente dois fatores que levam à perda de memória entre os mais velhos e também os mais jovens. A Depressão e a Ansiedade. De modo sucinto, a memória é formada quando o impulso nervoso passa de um neurônio (célula nervosa) para outro neurônio. Para que o impulso realize essa passagem, ele precisa da ajuda da Serotonina - um neurotransmissor que é uma substância auxiliadora nesta atividade, mantendo as funções cerebrais. Existem vários neurotransmissores, mas a Serotonina é um dos mais importantes na formação da memória. Se esta substância, por exemplo, encontra-se diminuída por algum motivo - fatores que podem ser intrínseco ou extrínseco -, a formação da memória estará prejudicada.
Para que haja aprendizado é necessário ATENÇÃO. Porém se a pessoa estiver deprimida o sistema nervoso estará muito debilitado para se colocar atento para uma nova tarefa. Se estiver ansioso, não conseguirá se fixar naquilo que precisa aprender. Resumidamente, a pessoa precisa estar equilibrada, ou seja, nem muito estimulada nem muito inibida para que possa aprender, isto é, criar novas histórias.
Por isso, é importante dizer que o esquecimento não está circunscrito somente aos velhos, como também não significa que seja o início de uma doença grave como a Doença de Alzheimer ou outras Demências. Em caso de dúvidas, é sempre importante procurar fazer uma avaliação médica.


3 – Como a perda de memória pode ser evitada ou retardada?

Havia antigamente um mito dizendo que o idoso não tinha muitas chances de aprender porque se acreditava que após os 30 anos de idade 100.000 células nervosas eram perdidas por dia. Hoje sabemos que esta teoria não é verdadeira. Nossas funções mentais aumentam ou diminuem em qualquer idade, dependendo do nível de estimulação. Ou seja, o importante não é a quantidade de células nervosas e sim a qualidade da conexão de uma célula com outra que se estabelece no aprendizado. Tudo em nosso corpo precisa ser usado. Quanto mais abertos estivermos para o aprendizado melhor serão as conexões nervosas e, conseqüentemente, melhor será nossa memória. É por isso que não devemos pensar que o nosso corpo é como uma máquina. Máquinas se desgastam com o tempo, mas o corpo humano precisa ser usado de modo inteligente para melhorar sua qualidade de vida. Quando eu falo corpo, estou também me referindo ao cérebro, porque não temos um corpo sem um cérebro e nem um cérebro ambulante sem um corpo. Somos seres únicos e, portanto, nossa memória é dependente de nossa vontade de descobrir novos caminhos. Devemos ser sempre muito curiosos.

4 – Existe alguma espécie de tratamento preventivo?

Algumas vezes me fazem a pergunta: Como posso manter minha memória? Eu respondo: “Interagir é a melhor solução”. Lembro-me de uma senhora de 91 anos que atendia que sempre dizia: “Apesar de me sentir cansada com alguns dos exercícios, sinto-me revigorada com nossas conversas. Estimula o meu pensar”. Eu acredito que o exercício físico é muito importante pois aumenta a circulação sanguínea e a oxigenação dos tecidos, melhorando o metabolismo cerebral. Porém, não adianta melhorar a oxigenação tecidual se não fizermos bom uso de nossas capacidades mentais. Com isso quero dizer que precisamos de melhores diálogos, assuntos mais desafiantes, que nos façam pensar, refletir, agir com sabedoria.

5 – Existe uma terapia para tratar problemas de memória?

A reflexão é fundamental para estimularmos a memória. Não apenas para estimularmos a memória como também para ressignificarmos nossa história de vida. Falamos muitas vezes que os idosos são experientes, mas o que é ter experiência sem qualidade? Nada. Para que possamos alcançar experiências com qualidade precisamos refletir sobre nossas experiências do dia-a-dia.
Quando disse que percebia que havia uma plasticidade neural ainda muito dinâmica nas pessoas acima de 60 anos e mais, me referia a esta capacidade das pessoas em mudarem e aprenderem coisas novas. Mas para isso, elas necessitavam de estímulos agradáveis e não a repetição. Nosso cérebro adora novidades, porque ele é dinâmico. Por isso, estímulos criativos são sempre bem-vindos. Por que gostamos tanto da arte? Porque ela nos instiga, questiona e nos faz pensar.

6 - Como a Gerontologia trata o assunto?

A Gerontologia possui uma técnica interessante de trabalho conhecida por “Oficina de Memória” que não apenas otimiza a memória como também auxilia na ressignificação da história de vida dos participantes do grupo, além, é claro, de um espaço excelente de convivência. Somos seres gregários e, portanto, precisamos dos outros como fonte contínua de estimulação.
Dentre os vários modos que podemos trabalhar a oficina de memória, existe uma técnica que chamo de “Objetos contadores de história”. Esta técnica visa reencontrar fragmentos perdidos da memória. Ou seja, você já parou para pensar naquele travesseiro que tinha somente o seu cheiro e que te confortava todas as noites? Ou qualquer outro objeto que trazia ou ainda lhe traz alegria, ou mesmo melancolia?
Estamos sempre rodeados pelos objetos, e eles acabam por contar um pouco de nossa história. Eles fazem parte de nós. Isso porque o nosso cérebro apreende todos os objetos em forma de imagens mentais. Assim, o que antes se encontrava fora passa a pertencer a nós. Por isso é um absurdo não permitir o idoso levar consigo seus pertences quando ele vai morar em outro lugar como casas de repouso, residência de filhos ou mesmo quando vão para hospitais para internações de longo prazo. Os objetos nos localizam no tempo e no espaço e, assim, eles possuem uma grande ajuda na estimulação da memória.
No meu livro eu conto uma passagem interessante que vivenciei com uma mulher de 86 anos. Havia anos que ela não arrumava suas gavetas. As empregadas se incumbiam do serviço não deixando que ela fizesse nada. Ela apenas reclamava comigo. Então a propus arrumar as gavetas junto a ela. Enquanto íamos encontrando objetos antigos, ela ia resgatando seu passado, lembrando e me contando a sua história. Cada objeto reencontrado era um lampejo na mente e no coração daquela senhora que já estava perdida no tempo. Relembrar a história nos gera muita satisfação e mobilidade em nossas vidas.


7 – A memória está diretamente ligada à concentração?

“Concentração” significa dirigir-se para um mesmo ponto, ou seja, focalizar em algo com atenção. Por isso, a memória é dependente da atenção, da vontade e interesse pelo aprendizado. Muitas vezes não sabemos onde colocamos as chaves, o nome da pessoa que acabou de se apresentar, porque não estamos focalizados, não temos interesse, estamos pensando em outras coisas. Hoje em dia é muito comum ficarmos angustiados devido à diversidade de informações. Com a Internet a distância diminui e a informação transbordou, facilitando e dificultando também o aprendizado, ou melhor a construção do conhecimento. Gosto de dizer, quando ministro minhas aulas de Gerontologia na Universidade, que a informação está acessível a todos, porém a construção do conhecimento está ficando à deriva. Se quisermos aprender precisamos diminuir a marcha e focalizar, e manter o foco. A diminuição das atividades na velhice é uma boa oportunidade para o aprender. Por isso vários programas de Universidades Abertas para a Terceira Idade (UNATIs) estão sendo lançados cada vez mais no país. Esta é uma fase da vida importante para o aprender. É uma necessidade fisiológica e existencial.
No meu livro colhi um relato de uma senhora de 75 anos que, após descobrir que poderia aprender mais, construindo conhecimento com liberdade, dizia: “Sei que cada dia envelheço mais e mais, mas parece que a minha idade ao invés de aumentar está diminuindo. Acredito que seja devido à realização dos meus sonhos, que não consegui realizar na minha infância e nem na mocidade. Eu estou conseguindo fazer tudo sem medo, sem receio, mais segura, com certeza do que estou fazendo”.
É fantástico perceber que podemos resgatar a nossa memória. Somos historiadores de nós mesmos. Por isso, somos autores de nossas próprias histórias. Assim temos escolhas, livre arbítrio para focalizarmos naquilo que mais interessa, criando um enredo bem-feito e reescrever ou escrever pela primeira vez uma história que nos satisfaça com colorido e muito brilho.

8 – É certo afirmar que perdemos a capacidade de concentração, e não a memória?

Perdemos a concentração quando não queremos mais entrar em contato com nós mesmos ou com nossas histórias. Existe uma teoria que diz que entrar no labirinto do esquecimento pode gerar a demência, pois você pode ir embora e não saber mais como retornar. No meu livro tem um relato de uma outra pessoa de 86 anos que dizia: “Desde que o meu marido morreu há 30 anos, não consigo mais dormir em paz. A saudade parece buscar o momento em que vou dormir para me atormentar. Quando me lembro dele a saudade se transforma em sofrimento[...] Na hora que deito a minha cabeça no travesseiro, vem uma enxurrada de coisas do passado que não quero mais ficar me lembrando. Isto me fere muito. É por isso que não consigo dormir sem os remédios. Eles me livram, de certo modo, do tormento [...] Tudo em minha vida perdeu sentido depois que meu marido morreu”. Muitos optam pelo esquecimento, pois lembrar fere. Sem dúvida precisamos ajudar estas pessoas a buscar novas memórias, novas paisagens mentais onde possam se regozijar com sua trajetória, e não mais ficar carregando o passado como peso morto.



Trechos de alguns depoimentos de mulheres idosas do livro “Envelhecer”

Sei que cada dia envelheço mais e mais, mas parece que a minha idade ao invés de aumentar está diminuindo. Acredito que seja devido à realização dos meus sonhos, que não consegui realizar na minha infância e nem na mocidade. Eu estou conseguindo fazer tudo sem medo, sem receio, mais segura, com certeza do que estou fazendo. Pág. 253 depoimentos de Yara.

Eu tenho buscado na minha vida a alegria perdida e estou conseguindo. Nós só temos uma vida. É tão bom contar piada, rir, brincar. Eu tenho que fazer bem a mim mesma, por isso faço aquilo que tenho vontade. Estou me sentindo uma pessoa feliz, estou leve. Pág. 243 depoimentos de Yara.

Eu não sinto o tempo passar porque sempre tenho novas idéias, idéias boas. Eu sempre tento pensar em realizar alguma coisa, tenho os meus sonhos, minhas fantasias. Pág. 231 depoimentos de Yara

O primeiro beijo foi direto na boca, na varanda da minha casa. Nós estávamos sentados, e ele olhava muito para os meus olhos e para a minha boca. Naquele momento eu sentia muita vontade que ele me beijasse, estava muito ansiosa por carinho, amor que não tinha. Pág. 227 depoimentos de Yara


Se cada um que encontrasse pelo chão folhas ressecadas, as pegasse e fizesse um carinho, tenho certeza que elas agradeceriam e ficariam felizes. Pág. 221 depoimentos de Yara

Tive que me desfazer de tudo que tinha. Eu vendi a cama, os meus móveis, o meu sofá que tinha acabado de ser reformado, estante, vendi tudo. Eu me lembro de ficar muito triste quando via as minhas coisas indo embora. Passei por tudo isso, mas a gente precisa ser forte e corajosa senão não dá não. A gente sente, mas... agora eu não sinto mais a falta das coisas, eu me acostumei a não ter mais nada. Agora eu tenho o meu corpo, este ninguém pode me tirar... Foi a única coisa que me restou. Eu já até me acostumei com o meu cantinho. Eu não posso reclamar. Pág. 204 depoimentos de Francisca


Hoje eu consigo entender minha coragem e força no passado, porque hoje, felizmente, posso ler coisas lindas, e então vou ligando tudo e agradeço a Deus por tudo o que passei ou que resgatei. Pág. 217 depoimentos de Yara

A vida deve ser vivida até que a última missão seja cumprida. Pág. 207 depoimentos de Francisca

"Nós, na velhice, temos que mudar para ficarmos mais interessantes". Pág. 180 depoimentos de Carmen