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A mulher murcha com a idade? É comum escutarmos reclamações de mulheres que têm medo do envelhecer. Baseado em vários trabalhos científicos, o corpo fundamenta-se em processos cíclicos de declínio e ascensão. São lados de uma mesma moeda. Seríamos os mesmos se não fosse o processo de envelhecer. Ninguém suportaria a repetição de ser a mesma pessoa sempre. Então, podemos dizer que a mulher floresce com a idade. Ela descobre novas formas de ser e de viver com o próprio envelhecimento. Quando pergunto a algumas mulheres se querem retornar no tempo, elas dizem que não, mas gostariam de ter um corpo mais jovem, "firme", sem celulite, estrias, etc. Tudo por pura convenção social e cultural. Existe um trabalho interessante de um americano chamado McLean, que pesquisou 242 mulheres que variavam entre 20 e 89 anos de idade, todas independentes e ativas. No grupo das mulheres mais jovens (20-29 anos), foi observado maior insatisfação com seus corpos do que no grupo das mulheres mais velhas (70-89 anos). Contudo, ele concluiu que a insatisfação corporal não estava significativamente associada à idade e sim à inabilidade dessas mulheres alcançarem o objetivo desejado de uma "figura ideal". A satisfação corporal vista pelo grupo das mulheres mais velhas estava relacionada com a capacidade de continuarem participando ativamente na comunidade.


O envelhecimento torna a mulher guardiã de seu tempo, mais coerente nas escolhas, serena e pacífica nas decisões. A tendência da mulher madura é buscar a justiça pela expressão de sua verdade. As mulheres mais velhas conseguem transformar o destino dos mais jovens. Elas são verdadeiramente curadoras em seus gestos.


Vocês já prestaram atenção o quanto o "colo de mãe" é transformador?
Quando criança, sempre escutava: "mãe só tem uma". Quando minha mãe faleceu perdi o referencial materno. Todos os homens têm dentro de si um referencial materno muito forte. Vivemos em busca da relação com o nosso lado feminino, intuitivo, sensível, poético, espiritual. Enquanto a mulher, também busca dentro de si um referencial masculino. Todos nós, humanos, temos pólos que se complementam. Vivemos em busca de um equilíbrio. O que é o verdadeiro equilíbrio? A Paz: movimento sutil e conciliatório. São os lados masculino e feminino se entrecruzando sem conflitos. Onde não há conflito surge a felicidade.


Vivemos um momento de grandes conflitos. O pólo masculino, dominador, expansivo, analítico, racional, competitivo se sobrepõe ao pólo feminino, parceiro, conservador, contextual, poético, intuitivo.
Estamos longe do equilíbrio, porque perdemos o significado da paz. Ainda lutamos pela paz. Enquanto houver luta não há paz. Estar em paz é estar nos braços de quem nos ama e amamos.
No livro "Quem somos nós? - O enigma do corpo", escrevo:


"Oxalá ter um colo para não precisar endurecer para a vida. No colo de mãe o choro da tristeza é amparado, não precisamos sentir vergonha. Como nos afastamos de nós mesmos, ficamos adultos e deixamos tudo para trás. Será que sentir a criança impede de estarmos no mundo da maturidade? Claro que não, quando temos um "colo de mãe". Quando podemos experimentar o "colo de mãe", a criança retorna, e sentimos a eternidade no momento.".

Eu não tenho mais a minha mãe, ela ficou na lembrança de meu próprio tempo, mas ainda consigo ter um "colo de mãe", pois as mulheres possuem o arquétipo de mãe. Todo arquétipo feminino é uma possibilidade de doação. A lua é menstrual. O fim é a certeza do recomeço. A mulher não é meio, como também não é fim. A mulher é o princípio de tudo. A despedida de uma mulher é como o pôr-da-lua; saudade mansa, beleza cintilante, sentimento latente. A mulher se despede para ser mãe, retorna ao lar para dividir o fruto com o parceiro que precisa aprender o cuidar, pois a mãe necessita voltar a ser mulher. Precisa ser amada como mulher, ainda que seja mãe. Portanto, não estou confundindo os papéis de mãe e mulher. Elas são tudo isso. Por isso, elas são fantásticas e enigmáticas. A mulher é um contínuo paradoxo.
Nesse sentido, posso ter um "colo de mãe" no abraço de minha filha, no beijo de minha esposa, no abraço de minhas amigas, no toque de minhas pacientes, no canto dos pássaros, na brisa fria da tarde de outono.
Quem sabe no dia das mães serei tocado pela brisa fria da tarde de domingo? Nesta brisa poderei sentir o toque de minha mãe como ato milagroso e misericordioso da mãe natureza que não nos abandona.
PEDRO PAULO MONTEIRO
MULHER - MÃE - MULHER