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Há quase 20 anos sou professor universitário. No início ministrei aulas de fisioterapia aplicada à neurologia e fisioterapia preventiva, que na época tinha um nome engraçado "fisioterapia aplicada às condições sanitárias". Ninguém sabia ao certo o que era e para que servia, mas era exigência do MEC. A faculdade, infelizmente, se alimentava pela retórica tosca na expressão medíocre do diretor: "manda quem pode, obedece quem tem juízo".
Muitos achavam que a disciplina era uma nova abordagem da saúde pública. Outros chegavam a galhofas dizendo ser o estudo das condições dos banheiros públicos. Quando me ofereceram a disciplina disse que aceitaria com uma condição, se eu pudesse mudar o conteúdo programático, eles aceitaram (mesmo porque estavam sem professor). Tentei organizar a disciplina de modo que eu pudesse trazer temas diferenciados aos alunos, pois na época tínhamos no curso muitas abordagens em ortopedia, neurologia, pediatria. Assim, construí uma disciplina totalmente esquizofrênica, na qual discutia três assuntos distintos: hanseníase, esportes, geriatria. Eram três em um, como os últimos modelos de som integrado lançados naquele ano. O "monstrinho" construído por mim foi programa lecionado por outros professores até pouco tempo, sem nenhuma reflexão.
Atualmente as pessoas querem seguir a carreira de professor universitário a todo custo, mesmo sem saber o que é ser professor "de verdade". Aliás, eu tive poucos professores "de verdade" em minha vida acadêmica. Demorei 10 anos para ser um professor melhor. Isso não quer dizer que outros precisem levar o mesmo tempo. Muitos podem levar menos tempo, pois cada um tem o próprio tempo. Eu conheço professores doutores que ainda não chegaram a ser professores "de verdade". Nas universidades encontramos com facilidade burocratas que adoram provas e reprovações, gostam de exercer poder medíocre típico de impotentes não-assumidos, acreditam dominar alunos, exibem-se como ursos de circo, e brincam de preencher papéis.

Estudo Contextualizado

Há anos não ministrava aulas para os alunos de fisioterapia. Havia pedido afastamento para estudar (para ser alguém na vida), e após alguns anos fui convidado a retornar à sala de aula. O que encontrei foi exatamente a mesma situação de antes: a inexistência de agentes ativos. Os alunos continuam passivos, com bocas abertas como passarinhos à espera do alimento do professor estropiado.
Como transformar alunos passivos em alunos ativos, autônomos e responsáveis? Eu só vejo saída pelo estudo contextualizado. O que é isso?
A vida muda, e é importante saber a nova direção a ser tomada quando o caminho se abre aos sentidos. Como fisioterapeuta descobri que não basta ser só fisioterapeuta, como não basta ser só fonoaudiólogo, psicólogo, médico, enfermeiro. O importante é aprender a ser curioso, observar com afinco, descobrir por si mesmo o essencial, construir alicerces saudáveis.
Edgar Morin, filósofo francês, ainda vivo, escreve no livro Terra Pátria:

"O pensamento que compartimenta, separa e isola, permite aos especialistas e experts ter um alto desempenho em seus compartimentos e cooperar eficazmente em setores de conhecimento não complexos, especialmente os que concernem ao funcionamento das máquinas artificiais; mas a lógica a que eles obedecem estende sobre a sociedade e as relações humanas as coerções e os mecanismos inumanos da máquina artificial, e sua visão determinista, mecanicista, quantitativa e formalista ignora, oculta ou dissolve tudo o que é subjetivo, afetivo, livre, criador” ( pág. 161).

Lidar com humano pressupõe estudos complexos, e isso exige conhecimento contextualizado.
Ontem avaliei uma senhora de 70 anos que sofria perda de interesse pela vida. Ela não era uma mulher deprimida, era sim consciente do próprio sofrimento, havia perdido a filha única e o marido que tanto amava. Ela se sentia solitária e desejava morrer, mas não queria se matar. Na avaliação pude constatar instabilidade postural severa, fraqueza muscular dos membros inferiores, e dificuldade na coordenação dos movimentos. Ela não faz uso de medicamentos, mas está "aérea", perdida dentro dela mesma, desconhece o risco de não ter equilíbrio corporal. Freqüentemente as pessoas não percebem a própria instabilidade postural. Por isso, instabilidade postural em geriatria é considerada uma síndrome obscura e perigosa. Todos os nossos sentidos são percebidos porque variam, ou seja, sabemos que há luz porque conhecemos a escuridão, escutamos o som porque conhecemos o silêncio. A gravidade é constante, não varia. Por isso, não sabemos quando perdemos o equilíbrio. Acreditamos que algo está errado, mas não sabemos o quê.
Não basta avaliar e dizer que é preciso sessões de tratamento, aplicar técnicas de estimulação de reações de equilíbrio, fortalecimento muscular, estimulação da coordenação motora. Ela também precisa de orientação, sentir apoio, palavras na medida certa.
Expliquei a ela que ter 70 anos atualmente é poder viver mais 20 anos. Portanto, sem tratamento poderia estar sofrendo 20 anos de vida. Segundo, se ela pensa que basta querer morrer para lograr a morte é um engano. Ela não pode querer algo que desconhece, o que ela quer é transformar-se, abandonar a continuidade trágica do passado e seguir além. Por último, expliquei a ela que se sentir mal com o corpo é se sentir mal com a vida.
Propus tratamento, mas solicitei a ela reflexão com atenção sobre o que conversamos durante as duas horas de avaliação. Dei-lhe um abraço e disse baixinho no ouvido dela que ela era mulher digna de confiança, e que não deveria se abandonar para não sofrer a perda de si mesma.
Eu não receio incompreensão do outro, pois quem precisa me compreender é o corpo, que se mostra sempre inteligente. Quem trabalha com o corpo sabe o quão eles são sábios.

Pode parecer simples, mas para se atingir o simples temos de escalar montanhas de conhecimentos complexos, estudar criativamente e realizar muita reflexão. Trabalhar com boa vontade sem dúvida é importante. Porém, sem o hábito de ler criativamente ninguém consegue lograr o nível almejado. Para ser fisioterapeuta competente e aceito socialmente será preciso ciência, inteiração, conhecimento pertinente.
Para finalizar gostaria de citar um professor "de verdade", Gabriel Perisse, autor de vários livros sobre leitura e escrita:



"O fato, no entanto, é que muitos [fisioterapeutas] continuam alheios ou, o que é pior, avessos aos livros. Para o resto da vida, só lerão “de vez em quando”: manuais técnicos, o caderno de esportes do jornal, a revista mensal ilustrada, qualquer coisa em que o interesse imediato pelo assunto supere a barreira de uma incapacidade quase física para ler textos exigentes e substanciais".


Até breve,
Por Pedro Paulo Monteiro
PEDRO PAULO MONTEIRO
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