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"Os aromas trazem lembranças, mas despertam também nossos sentidos sonolentos, alegram-nos e satisfazem-nos, ajudam a definir nossas auto-imagens, sacodem o caldeirão de nossa sedução, previnem-nos do perigo, fazem-nos cair em tentação, abanam nosso fervor religioso, acompanham-nos ao paraíso, ligam-nos à moda, guiam-nos para a luxúria. E, mesmo assim, ao longo dos tempos, o olfato tornou-se o menos necessário de nossos sentidos...”Diane Ackerman


Quando estava na faculdade de fisioterapia havia uma disciplina que quase todos os alunos não gostavam, “Técnicas Manuais e Massoterapia”. O título pomposo não conseguia esconder o preconceito e repugnância pelo tema. Tudo não passava de ignorância, insegurança, prepotência, por parte dos alunos. Hoje compreendo, queríamos ser fisioterapeutas e acreditávamos que ser massagista não era bom o suficiente. Na época era comum, por desconhecimento, confundirem os profissionais.
Atualmente costumo dizer aos meus alunos que quando estiver mais velho quero uma casa afastada da cidade para atender as pessoas que me procurarem. Utilizarei técnicas de massagem e organização corporal. Ao sentir o corpo e se conscientizar dele não há por que ter problemas.

Há alguns anos conheci um fisioterapeuta que havia trabalhado durante muito tempo na capital paulista. Desistiu do consultório próspero para ir morar no interior, bem no alto de uma montanha. Lá, ele trabalhava como terapeuta floral. Usava uma técnica interessante, levava o cliente a escolher as ervas e flores do jardim, em frente ao seu consultório, para fazer banhos terapêuticos. O lugar tinha várias banheiras. Ele realizava um ritual para colher as plantas para fazer o banho. O processo terapêutico era poético, intuitivo e emocionante, sem falar nos resultados positivos. A agenda dele era cheia, e muitos dos seus clientes vinham da capital. Ou seja, tinham de viajar durante algumas horas para serem atendidos. Isso corrobora a idéia de que somos escolhidos quando estamos prontos ao serviço.
Uma das angústias dos recém-formados em fisioterapia é não ter trabalho. É importante fazer uma reflexão: será que estamos preparados para servir? Não somos doutores para esconder nossa ignorância por trás de jalecos encardidos, somos doutores para educar, ser um preceptor. A etimologia latina da palavra doctoris significa aquele que ensina (docere).
Em síntese, devemos ser aquele que expurga a ignorância e conduz ao apaziguamento. Onde há saber há paz, onde há paz inexiste dor. Quando me refiro ao saber quero ir além do que imaginamos ser a palavra sabedoria. Por isso, gosto muito da definição de Ram Dass: “sabedoria é aquietar a mente”. Atualmente somos encharcados de informação, porém cada vez mais distantes da sabedoria.
Quando tive a oportunidade de conhecer o trabalho da terapia floral achei fascinante, mas não me interessei em estudá-la. Após alguns anos conheci a aromaterapia ao ser convidado a abrir um congresso sobre o tema, na qual ministrei a palestra de abertura intitulada “Os princípios de um terapeuta”. Tive a oportunidade de conhecer vários estudos sérios com resultados surpreendentes. Quem trabalha nesta área precisa de muita observação e intuição, pois o sentido do olfato é um sentido mudo. Você já reparou a dificuldade em expressar por palavras o cheiro do jasmim, eucalipto, rosa?
Atualmente temos pesquisas sérias que nos mostram a eficácia da aromaterapia. Elas afirmam que o uso de óleos essências propicia:

• Mudança de humor, e aumento do bem-estar (Baron, 1990);
• Redução de estresse (Warren e Warrenburg, 1993);
• Evocação de emoções (Classen e col.1994);
• Efeito sedativo ou estimulante (Gatti e Cayola, 1923);
• Mudança imediata sobre os pulmões, passando diretamente para a corrente sanguínea, até atingir o corpo todo (Buchbauer, 1993);
• Ativação da memória e dos sentimentos, quando a molécula perfumada atinge principalmente o sistema límbico (Price e Price, 1999);
• Liberação ou bloqueio de neurotransmissores podendo gerar euforia, sedação, relaxamento (Schmidt, 1995);
• Formação de anticorpos (Turin, 1995);
• Tratamento da anosmia (Wysocki et al, 1992; Holley,1993; Nasel et al, 1994);
• Estimulação da criatividade e memórias felizes (Warren e Warrenburg, 1993);
• Indução aos padrões cerebrais Beta, relacionados com a atenção e estado de alerta (Steele, 1984);
• Indução aos níveis mais baixos da atividade cerebral (Alfa = tranqüilidade e Teta = estado cerebral próximo do sonho) (Steele, 1984);
• Ação analgésica (Rossi e col. 1988);
• Ação fungicida e antiviral (Larrondo e Calvo, 1991);
• Ação antiinflamatória (Jackovlev et al, 1983);
• Ação antiespasmódica (Taddei et al, 1988; Franchomme e Pénoël, 1990);
• Ação expectorante ( Schilcher, 1985);
• Ação cardiotônica (Woolfson e Hewitt, 1992);
• Ação cicatrizante (Weiss, 1998).

Pelo fato de o nosso corpo não ser uma máquina a produzir efeitos, baseados em suas causas, e sim uma complexidade simbólica, a aromaterapia propicia diminuir diversos sofrimentos, tais como: irritabilidade, raiva, inquietação, ansiedade, tensão de expectativa, angústia, medo, culpa, retraimento, apatia, indolência, pensamentos obsessivos que geram fadiga, melancolia, desconcentração, tristeza, depressão.
A aromaterapia é alquimia natural. Paracelso, por exemplo, dizia que um médico deveria aprender a linguagem da natureza para dominar a medicina. Atualmente, com o avanço da ciência tecnológica fica difícil acreditar no aroma terapêutico. As pessoas estão habituadas a pensar erroneamente somente em “problemas reais”, ou seja, problemas que possam ser analisados pelos aparelhos de medição. O que não se pode medir não significa que inexista.
O corpo é o palco de manifestação daquilo que somos. Ao estarmos bem, temos liberdade de expressão, caso contrário nós apresentamos movimentos bloqueados e lentificados. Tudo depende do ser e estar de cada um. Quando dizemos que estamos com raiva, não raro podemos estar inflamados. Ou quando dizemos que estamos de “saco cheio” podemos estar entupidos de secreção.
O corpo tem linguagem própria, recusa o pensamento lógico. Mesmo que queiramos dar coerência aos sintomas caímos na armadilha do erro. O corpo é história e, portanto, memória. Tudo está nele, e vem com ele na travessia do tempo.
Nesse sentido, a aromaterapia pode contribuir bastante em nossa prática. Se experimentarmos usar alguns óleos essenciais quando estivermos alongando, ou mesmo fortalecendo alguns grupos musculares, teremos efeitos no tratamento de todo o indivíduo. Por assim dizer, a relevância da aromaterapia associada à fisioterapia vai mais longe, porque trabalhamos o ser individual como um todo integral.
Por exemplo, eu atendo uma senhora de 80 anos de idade que apresenta artrose de joelhos. O joelho direito já sofreu artroplastia total, e o esquerdo estava caminhando para a cirurgia. Segundo ela, fez fisioterapia “liga e desliga” durante quinze anos, o que só contribuiu para mais dor e a cirurgia como último recurso.
Há um mês, além das técnicas convencionais de alongamento e organização corporal, estou usando óleo de Junípero (Juniperus communis) para eliminar a dor e diminuir os espasmos protetores. Ela já flexiona o joelho a 90 graus, o que antes parecia impossível. A dor tem diminuído muito, e ela já consegue subir e descer escadas. Como ela diz: “estou muito mais esperançosa”. Sem dúvida, não é somente o óleo de Junípero, mas com certeza ele tem feito diferença no processo terapêutico, principalmente no que diz respeito ao tempo de recuperação.
Pela perspectiva psicossomática podemos fazer uma leitura interessante. As articulações são nossas “encruzilhadas psicossomáticas”, a mobilidade que nos permite ir adiante. A artrose, como todos sabem, é a degeneração, a representação do desgaste temporal. Tudo o que carregamos através de nosso plano anímico-corporal. O joelho se curva, é a articulação que simboliza a humildade. Não quero afirmar que ela não seja uma pessoa humilde, mas ela sempre fora uma mulher a cuidar de todos, sem ter retribuição do cuidado. Ou seja, cuidar, sem aceitar ser cuidado é uma postura de falta de humildade para consigo mesma. Durante anos ela cuidou do pai doente até a morte dele, depois veio a mãe, e ela mais uma vez exerceu o seu papel de filha cuidadora, não encontrou ninguém para estar ao lado dela, e hoje vive sozinha. Ela se condenou, carregando no corpo as dores (artrose) da recusa em curvar-se sobre si mesma e aceitar se libertar.
O arbusto do Junípero nasce por toda a região mediterrânea, e tem propriedades purificantes e desintoxicantes. Está sempre verdejante - o símbolo do momento presente, da renovação. Assim, possui efeito de limpar o passado, renovar o presente, e permitir o caminhar em direção ao futuro.
A dor é sempre resistência, recusa do fluxo da vida, imolação. O corpo serve de referência para entendermos que algo precisa ser modificado, porque ele é uma estrutura dinâmica.
Portanto, ela está conseguindo abandonar o passado e seguir adiante, rumo a novas descobertas. Não há idade certa para fazer ou deixar de fazer qualquer coisa. O tempo é agora.
Tudo começa onde estamos. Somos poesia porque somos autoconstrução contínua.
Para finalizar, eu acredito na poesia do corpo, e como está escrito no livro Quem Somos Nós? O Enigma Do Corpo:

“A poesia utiliza-se de uma linguagem metafórica que tem ritmo, pulsação. Do mesmo modo, o corpo humano existe porque tem ritmo e pulsação sustentados por campos eletromagnéticos. Sabemos que a matéria é constituída por partículas minúsculas em um vasto vazio do espaço, unidas por campos elétricos. Em síntese, o corpo é plástico porque é energia em ação.” (Monteiro, 2004:14)
Até Breve,
Por Pedro Paulo Monteiro
PEDRO PAULO MONTEIRO
O aroma e a poesia do corpo