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Meu pai há muito desistira do sorriso da família. Homem quieto, cumpridor de suas obras e de seu tempo. Nada queria anunciar. Pensamentos mudos no canto ficavam. O sol do trabalho era carquilha de sua história.
Minha mãe os trapos tecia. Era dela a tarefa de conciliar a gente de casa. Decidia rumos e gestos. Meus irmãos e eu não tracejávamos uma linha de vida sequer sem os olhos corroídos dela. Até meu pai não escapava de sua regência.

Num certo tempo, meu pai decidira subir a alta montanha para buscar o esquecimento. Tarefa árdua para quem gostava de tecer lembranças.
A montanha quase tocava o céu. Lugar onde só as nuvens podiam alcançar.
Construiu para si, durante anos, a certeza daquela viagem. O silêncio era o mapa, enquanto a memória a dúvida. Munido de botas firmes e roupas resistentes não pensava em levar mais nada. Queria estar solto e repleto de si mesmo.

Com os lábios selados para não assumir saudades, sem peso nas costas, veio se despedir da gente. Não falou, mas os gestos o traia. O coração se destroncava ao me ver pequeno. Nunca derreteria a solidez daquela memória. Sabia que eu não cresceria, não me conheceria homem, pai, ou mesmo avô. Tudo estava a terminar no ponto do adeus. Aproximou-se e tocou os lábios em minha testa, concedendo-me a benção da continuidade.

Minha mãe desaprovava a atitude dele. Achava ignorância de homem irresponsável. Convicta de que tudo era “fogo de palha”, não demoraria muito para ele retornar, arrependido, se desculpando pela atitude demente. Rogava-lhe praga: “nunca mais quero vê-lo. Vá e seja infeliz pelo resto da vida!”

Com movimento manso, virou-se em direção à sombra da montanha que se formava ao longe. O sol caia por detrás do cume do grande rochedo. Meu peito de criança escurecia. As pernas perdiam o sentido. Queria acompanhá-lo, ao mesmo tempo não podia desapontar minha mãe. Estava cindido pelo conflito da despedida.

Meu pai desapareceu nas sombras da consciência, mas vivia como personagem de minhas cenas infantis. Ele havia ficado, mesmo indo. Estava quieto, num dos cantos da lembrança.

Minha mãe irredutível, não desistia em buscar desculpas pelo sumiço dele. Uma hora dizia que ele “estava dando um tempo para a cabeça”, outras eram: “desvio de conduta”, “doença incurável”, “demência precoce de tanto pensar calado”.
Parentes, vizinhos, conhecidos, polícia, padre, caçadores de recompensa. Todos queriam intervir, buscar notícias, fazer fuxico, alcançar notoriedade pelo resgate de um homem só.
Ninguém conhecia o paradeiro dele. Nenhuma notícia da presença do homem ausente. Será que havia morrido de fome? Tornou-se presa fácil de animais selvagens? Se não havia resquícios, tampouco poderia estar morto. Porventura estivesse na angústia da fome, necessitado de ajuda.

Já não era tão pequeno quando decidi partir ao encontro da sorte do encontro. Não desejava que minha mãe soubesse, apesar de a convicção de que ela se escondia do não saber das coisas. Ela mesma facilitava a empreitada. Queria ter coragem, desprender-se, arriscar-se ao compromisso consigo mesma. Contudo, persistia por trás da cortina.

Várias vezes subi a montanha, deixando alimentos sempre no mesmo lugar, longe da chuva e do alcance dos animais. Quando retornava ao local a comida havia desaparecido, sem sujeira e sem rastros.

Subir a montanha era espreitar uma paisagem sem o alcance do olhar. Nunca foi possível vê-lo totalmente. Apenas as sombras exerciam fascínios. Lá, ele estava livre da ingratidão e da indiferença.
Sempre que subia a montanha sentia-me abraçado pelo silêncio afetuoso de meu pai. O céu escuro era mistério aberto ao pensamento incrédulo em poder revê-lo. Carregava comigo lembranças que a montanha não dissolvia. Somente as estrelas eram cúmplices e testemunhas de minha história sem fim.
Por Pedro Paulo Monteiro
PEDRO PAULO MONTEIRO
Montanha do Esquecimento