Artigos
Atravessamos um momento crítico de nossa época. Passamos por um tempo cujo principal valor é concedido à informação. Estamos imersos no tempo da informação que é gerada, captada e transmitida. Entretanto, a informação é apenas parte de um processo muito maior de construção de nossa história. Informar não é o mesmo que construir conhecimento. O conhecimento está além da própria fronteira do saber. Ele é o significado implícito do ser. Por esse motivo, o processo de conhecer não se perfaz em etapas estanques, mas se constrói, desconstrói e se reconstrói na passagem da temporalidade, formando a nossa história de vida. Esta história, por assim dizer, deve ser valorizada, reverenciada, dignificada. Cada um de nós possui um tempo subjetivo que constitui uma narrativa irredutível com semblantes especiais que necessitam ser conhecidas. Por isso, quanto mais velhos nos tornamos mais acontecimentos e fragmentos temos para somar ao nosso vivido. Não desvalorizemos o nosso vivido existencial, pois a história é a marca de um tempo que foi construído por nós mesmos. Virar as costas para este tempo é virar as costas para nós mesmos. Ser mais velho é ter mais oportunidade de debruçar na janela do tempo, verificar o que foi mais essencial na estrada da vida para, finalmente, optar por trilhas mais significativas. Não devemos acreditar em um tempo ou época que tenha sido melhor ou pior. O melhor tempo é o agora porque é único, repleto de possibilidades de tornar o destino pessoal diferenciado de tudo aquilo que um dia pôde ser vivido.


Quanto mais velhos nos tornamos mais histórias temos para contar. Se alguém disser que uma história não tem importância, saiba que isso é uma inverdade. Sempre estaremos interessados nas histórias porque somos constituídos por elas. Quando dialogamos contamos histórias, formando os nossos dramas pessoais, criando os nossos romances, paisagens cheias de suspenses, com a finalidade de dar movimento à vida. A vida é dinâmica e não cessa. Somos proprietários de um tempo e queremos contar aos outros a respeito dele. Porventura, em nosso íntimo, desejamos deixar para os outros uma lembrança de nós mesmos, a fim de continuarmos a fazer parte da história deles como personagens de um tempo que já se foi. Queremos permanecer na memória daqueles que ainda continuarão a trilhar a vida. O que é viver se não podemos deixar nossos rastros?


Infelizmente, estamos atravessando um tempo sem sabermos ao certo quem está percorrendo esse tempo. Estamos limitados pela angústia da informação, excluindo de forma fria e velada àqueles que possuem fatos marcantes, histórias deslumbrantes. Nossa cultura capitalista descarta as histórias em prol de imagens que nada dizem. A mídia contribui para a alienação, criando incomunicação e solidão entre as pessoas, lesando os sentidos sem que saibamos que estamos sendo mutilados pela arma virtual. O que uma informação pode oferecer se não conhecemos a nossa própria história? Simplesmente ficamos perdidos dentro de nós mesmos.
Por isso a urgência da otimização da memória. Precisamos conversar, dialogar, respeitar a história do outro, a fim de proporcionar a ressignificação da história pessoal. Sempre que houver história, haverá lembranças. Se assim fizermos, a caminhada de todos não será em vão.
PEDRO PAULO MONTEIRO
A Importância de uma História de Vida