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Hoje se comemora o dia do idoso. O Dia Nacional do Idoso foi estabelecido em 1999 pela Comissão de Educação do Senado Federal e serve para refletir a respeito da situação do idoso no País, seus direitos e dificuldades.


Sendo assim, devemos aqui enaltecer as pessoas que durante anos conseguiram formar uma história. O importante não é o tamanho dessa história, e sim como ela foi constituída. Uma história de lutas e desistências, de dor e de prazer, de amor e de medo, de conquistas e perdas. Somos feitos de tudo isso. São as várias situações vivenciadas que nos dá forma e conteúdo. Nunca seremos vazios, porque somos preenchidos pelas histórias vividas.


Nasci com a esperança cravada na carne. Não sei explicar, mas acredito no processo da vida. Enalteço o envelhecer porque é um processo de viver. O que nos resta é apenas viver intensamente e nada mais.
Entretanto, viver não é tarefa fácil. Viver é um desafio permanente. E quanto mais envelhecemos, mais somos instigados a colocar em prática aquilo que aprendemos no passado. Estamos sendo testados constantemente. Somos convidados a expressar os nossos sentimentos, mostrando quem somos.
Costumo dizer, se a raiva e os sentimentos reprimidos saíssem na urina não haveria tantas tensões musculares e doenças na velhice. A expressão dos sentimentos é sempre salutar, principalmente quando são compreendidos e respeitados pelos outros.


Infelizmente a expressão dos mais velhos nem sempre é bem-vinda. Mesmo dentro de sua própria família. O que é dito não é ouvido, o que é ouvido não é levado em consideração, e aquilo que é levado em consideração, às vezes, é motivo de mais conflitos. Todo ruído interfere na comunicação.
As conflituosas relações familiares foram descritas magistralmente por Clarice Lispector em seus contos. O meu preferido é "Feliz Aniversário", que gostaria de comentar aqui.


Neste conto, Clarice descortina a face opaca de uma relação familiar corrompida. Ela consegue descrever em linhas consistentes, sem pestanejar, a festa de aniversário de 89 anos de Anita: "uma velha grande, magra, imponente e morena", posta à cabeceira da mesa, aguardando os familiares que vinham apenas para confirmar alguns laços de família. As pessoas não tinham interesses nos 89 anos da velha mulher, mesmo porque a festa de aniversário era mais uma justificação de sua filha Zilda - única mulher entre seus seis irmãos homens - do que uma comemoração.


Para Anita era difícil vencer os anos sem poder pertencê-los. Aquelas pessoas não mais pertenciam ao seu tempo. Quem tinha pertencido já havia partido. Ela apenas estava aprisionada em seu próprio tempo em uma postura de espera. Ali, o máximo que podia fazer era contemplar o nada do passado, o nada do presente e a possibilidade do nada do futuro.


Todos os convidados se punham a comer os sanduíches de presunto e croquetes gordurosos, e a beber o ponche, servido por Zilda que suava como uma escrava sem ter a ajuda das cunhadas.
A dona da casa fazia tudo sozinha, sem nenhum elogio por seu esforço em arrumar a festa com tanto cuidado. Angustiada em agradar, "pés exaustos e coração revoltado", colocava-se a esperar o momento daquilo tudo terminar.


Finalmente cantam os parabéns, e uma das cunhadas diz que deve ser a aniversariante a cortar o bolo. Todos curiosos em ver Anita cortar o bolo (talvez não esperassem ver uma mulher "naquela idade" fazer tanto), vêem mais do que uma talhada no bolo.


Anita, mãe de uma família repleta de cinismo, sabia que tinha dado à luz a seres sem austeridade e fracos, e isso lhe feria. Impotente à cadeira, a única forma de expressão era cuspir no chão, como fazem os valentes nos confrontos.


Sua filha ficara consternada e envergonhada, sabendo que os outros se entreolhavam como se coubesse a ela dar a devida educação à velha. Angustiada repreendeu a mãe para que todos ouvissem, como uma confirmação de que ela fazia "bem" o seu trabalho de filha.


Todos acharam que aquilo era conduta de criança. Como diz o tosco ditado: Todo velho volta a ser criança.
A situação continuou, porque a raiva de Anita a sufocava. Via na família a sua própria falha, e se cobrava pelos erros cometidos.


Como podemos passar aos filhos aquilo que não somos? Ou eles são aquilo que não conseguimos enxergar em nós? Quem de fato somos?


Na verdade, não se erra individualmente, a falha encontra-se nas ligações entre as pessoas que trafegam na relação familiar. E quando há ruído não há comunicação eficiente.
Anita pede um copo de vinho e explode amarga, desferindo golpes ofensivos: "Que o diabo vos carregue, corja de maricas, cornos e vagabundas!".
A partir daí a festa não mais se sustenta. Aos poucos, as pessoas, com seus estômagos cheios de porcarias, se levantam e com cautela se despedem.


A mudez de Anita era a sua última palavra. Parece que consegue vencer: "A aniversariante recebeu um beijo cauteloso de cada um como se sua pele tão familiar fosse uma armadilha".
Se cada um pudesse, naquele momento, ser transparente, talvez, acabariam com o ruído da relação. Tudo poderia se tornar mais claro e verdadeiro. Mas não conseguiram, e continuaram utilizando os seus conhecidos disfarces.
Algumas pessoas ainda acham que os mais velhos não percebem as situações. Desse modo, escondem os fatos, fingem posturas. As pessoas mais velhas vêem melhor porque a paisagem já é conhecida. Por exemplo, uma simples mudança do tom de voz da filha ou filho já pode ser percebida.
O que muitos não sabem é que o processo de envelhecimento faz alguns sentidos alterarem, tornando as sensações remanescentes mais solidárias. Por isso, os mais velhos enxergam melhor, não com os olhos especificamente, mas com todos os outros sentidos juntos. Quanto mais velhos, mais andamos e mais cansados ficamos de tantas paisagens repetidas. Os velhos enxergam até demais, só que não querem as recidivas dos fatos, estão cansados de repisarem no conhecido. Eles passam a ser simples em suas escolhas externas, ao mesmo tempo em que aumentam a sua complexidade existencial interna.
Quanto mais velhos, mais se torna necessário deixar as malas pesadas do passado para continuar a viagem mais livremente. É por isso que muitos preferem ficar calados, como Anita no conto de Clarice Lispector.


O que Anita mais queria era ficar como as pedras. Apenas esperar o calor de um bom raio de sol tocar o seu corpo, mantendo-o aquecido, a fim de facilitar na travessia do tempo e nada mais.

Hoje é de fato um bom dia para reflexão. Precisamos pensar o envelhecimento como um processo circunscrito a todos nós. Estamos mais velhos a cada momento, seja na batida do coração, na brisa tocando a pele, na flor brotando na primavera, no sentimento de uma simples lembrança.
PEDRO PAULO MONTEIRO
Sensações Muito Mais Solidárias